Sim, porque não será extenso; não haverá lugar para vazios.
As palavras aqui ocuparão parte do espaço: algumas gavetas,
geladeira, a cima das mesas, parte do armário do banheiro...
Mas não todo o imóvel.
A outra parte será destinada a quem desejar visitá-lo, tomar
por empréstimo alguns vocábulos moldá-los, ou mesmo senti-los.
Não será necessário bater a porta sempre que se desejar entrar,
se a causa for justa e as palavras respeitadas,os visitantes serão
sempre bem vindos.
Caso deseje deixar de lembrança alguns termos poucos ou muitos
não se preocupe com a disponibilidade de espaço,
o compactoimóvel só estará completo para aquele que não
gostar do aroma da torta de morango no forno, das rosas na
janela ou mesmo para quem se sinta grande demais
a ponto de não caber em seus cômodos.

Todos os demais,
sejam bem vindos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um direito

Uma pequena caixa (sem laço de fita, nó, ou mesmo embrulho) assim ela se faz. Um pouco distante de meu controle, espontâneo apenas, assim ela se constitui e quando piscares os olhos aqui ela estará, posta em tuas mãos. Assim é possível porque é verdadeira. Assim ela existe porque há motivos e esses trazem as palavras certas (as mais diretas- não – as mais certas). Sem que eu saiba mesmo se conseguirei contê-la em minhas mãos, nem mesmo se será possível materializá-la num encontro pessoal. Um símbolo talvez o fizesse, mas, existiria tanto ali que de certa forma transbordaria daquele objeto e tanto eu quanto tu poderíamos ficar por horas decifrando sua extensão.
Mesmo sem forma definida ela- esta que te trago- irá se tornando cada vez mais clara, com o passar do tempo. Mais doce, também. Sim, doce como o aroma dos pães de queijo em fronte a uma delicatessen; como o pleonástico vapor quente de biscoitos recém assados num forno caseiro; o gelo de uma torta de limão; brigadeiros enrolados postos à mesa de festa; chamativas barras Toblerone num dia de compras; tortas e tortas de chocolate com calda escorrendo por entre os dedos; biscoitos de morango – jamais tortinhas; sorvetes; Baton; e como faltar: Irresistíveis Gotas de Chocolate com Menta.
E esta será indispensável para que tu acesses o pertence também a ti.
Sopra, sopra um suspiro de alívio por esses dias, mas, seria uma insanidade dizer não houve Sol por todo o ano que passou. Em meio a tanta agonia, sobrevivemos da melhor maneira que se podia – não levando tão a sério o que podia ser ignorado, se dedicando ao máximo ao que não podia ficar pra trás, ao indispensável demos o valor necessário, digno. E, se assim foi, devo não só agradecer pelas lembranças, mas também pelo que virá, afinal, não foram mudanças para um ano que se encerra, mas para uma vida que continua, afinal, já começou e está longe do fim- Amém
Das mais caras compras, até o mais gordo dos dias, todos lacrados e guardados (como aquele livro numa biblioteca de imensas estantes, porém que tu sabes exatamente onde se encontra por conhecer todo o caminho).
Livros numa biblioteca. Todos os aromas em suas páginas, todas as telas, todas histórias – sejam lembranças, sejam contos de fadas – ao alcance dos olhos sempre que se desejar lembrar. Páginas e páginas: Algumas perfeitas, manchadas, outras rasuradas ou mesmo rasgadas – para os dias de menor paciência- nenhuma em branco, porém. Uma biblioteca pronta para comportar quantos livros a mais sejam escritos, sem limites para suas estantes.
Suas paredes, rascunhos das telas, permanecerão manchadas para que nem mesmo os rabiscos tortos sejam esquecidos, para que nem mesmo as palavras menos doces sejam apagadas, afinal, sem elas as posteriores não viriam. Já o teto, com manchas de pingos acidentais lá permanecerá. Talvez, esses mesmos pingos caiam e borrem as telas e assim tornem-nas mais especiais, mais caras.
Até mesmo o que se desejou e não se concretizou lá estará (talvez apareça mais sólido em páginas que ainda virão). Até mesmo as frustrações, com sua importância. Até mesmo a xícara sem café, as blusas que estendem seu significado além da não nudez. Exatamente tudo, até o que não cabe nessas linhas.

Um lugar especial, digno de constantes visitas, ocioso por mais telas, mais páginas.
Um lugar que sei: Sempre visitarei.
Um lugar que foi construído não apenas por mim, que não pertence apenas a mim, mas que talvez não se mostre tão nítido para todos os construtores - autores. Assim, cabe a mim vim aqui o fazer. Cabe a mim, entregar-te essa chave, para que sempre que deseje, rabisque algumas telas, leias outras prontas e delicie-se com todas as fragrâncias que passarão pelas frestas das portas ou mesmo entrarão pela janela.


Encanta-te com as estrelas numa noite sem luar, sentando num dos parapeitos deste lugar que tu também ajudaste a construir.



Agora em tuas mãos, fazes dela o melhor que puder.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Tempo de sol escaldante com dias curtos e noites longas: Paradoxal e mais feliz

Depois da chuva, depois da névoa, e até mesmo da nevasca, enfim aconteceu. Desejado, demorado, nunca tardio. Ah, sim... Como é doce, todas as possibilidades, sem restrição- quem sabe tenha mas não interessa pensar nelas. Tudo que a tempo não se podia, tudo que há um tempo se reduzia a um futuro distante, uma promessa, uma lembrança do que já se teve e se tornou necessário aguardar.
E aguardado foi, como se todas as horas passassem como dias e esses como meses. As noites, porém, passavam como minutos, e às vezes até centésimos deles, como se num piscar de olhos o momento de evasão fosse roubado e de volta à realidade havia muito a se cumprir, de todos os lados a cobrança se fazia, e em todas as direções algo lembrava da dívida não paga, da ponta sem nó, da estação que ainda parecia distante.
É difícil dizer se é chegada a estação. O motorista continua, agora sem forçar tanto o motor, como uma motocicleta o faz descendo uma ladeira, como se tudo agora não dependesse mais da vontade de alguém, como se apenas a sensatez fosse capaz de determinar um destino, resta aguardar, agora.
O sol também veio prestigiar, como um convidado de honra, marca sua presença e proporciona ainda mais motivos para acordar. Aproveitemos e façamos o que por tantas noites mal dormidas ou mesmo dias de olhos entre abertos foi desejado, seja esse desejo qual for. Merecemos, sim. Ao contrário do fim, um começo. Dias que serão como minutos e noites que passarão como meses, esse tempo agora permitido, agora de direito invicto, esse tempo de paz.


Morangos ou doces deseje e o faça: Agora teu tempo é teu, aproveite-o antes de ser roubado novamente.

                                                                                                  19/12/11

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Wake up!


Você reclama. Eu reclamo. Porém, mais doce que a realidade não há.
Por mais que me perca em devaneios ou tenha passado horas em sonhos, jamais senti (e jamais sentirei) o aroma ou sabor tamanho de um minuto estando acordada (num sonho qualquer).
Sim, doce. Sim, bom... Muito bom e jamais algum tipo de sonho será melhor.
“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar” (Shakespeare)
Nossos sonhos são traidores e nos fazem perder o tempo que poderíamos viver se não fosse o medo de acordar. - Eu diria.
Acordar dói. Dói como a primeira vez que você respira só, quando nasce. Mas é tão necessário e de necessidade transfigura-se em vício.
Acordar é como ter amigos: Você pode não julgar necessário ou mesmo duvidar se de fato é possível, mas então quando você se convence, vicia e não quer viver mais de outro jeito.
 De pé.

Obrigada por me fazer levantar!

sábado, 26 de novembro de 2011

O pincel está respingado de tinta, mais uma vez.


Se eu te contar com todas as palavras aquilo que aqui digo, talvez tu não te contentes tanto, não disponibilize tempo para ouvir o que tentarei balbuciar aos pés de teu ouvido.
Mas então, tu me perguntas: “E como mais tu dizes se não com todas as palavras?”.
Com imagens. Quantas cenas já passaram em tua mente desde que passou por esses pequenos cômodos? Quantos sabores tu empregaste para torta tão esperada no forno ou as rosas nunca murchas postas ao lado do parapeito? Pois te digo como quem sabe por onde andas: Se todas as palavras fossem ditas e não te restasse a dúvida, teu interesse não seria o mesmo.
Desejas uma ilustração?
 Quem tem um sol amarelo num desenho, tem um sol amarelo num desenho e nada mais que seja intrigante.
Quem tem um sol num desenho, tem um sol amarelo, laranja, vermelho... Ou mesmo sem brilho, para os dias nublados.
Tu moldas aquilo que digo pois, tua sensação, teu sentimento convivem com minhas palavras e as fazem mais tuas do que propriamente minhas quando és tu quem ler.
Se, eu te dou um castelo de blocos presos, para sempre um castelo.
Se, eu te dou um castelo de blocos soltos, tu o derrubas e constrói o que te convier, e nem precisa ser uma morada.

Se para ti é teu, internalizarás; se somente meu for, não te tocarás tão pra sempre assim.

                                                                                                                                             20-11-2011//21-11-2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sem nuvens, sem ressaca: Meu Desejo.

Uma nuvem tem aparecido no céu. Posso vê-la pelo reflexo de alguns olhos próximos, olhos que não desejo ver também a chuva refletir, mas esse poder não compete a mim, escorre por entre meus dedos, pois não cabe em minhas mãos.
Sim, que seja passageira, que se espalhe e não mais adie o sol que deseja tanto aparecer, que tanto deseja iluminar, que tanto deseja refletir nesses mesmos olhos, seus raios. Que eu possa ver, também, brotar um sorriso, aquele escondido da sombra e de toda lágrima triste que pudesse acompanha-lo. Desejo tanto vê-lo. Não. Desejo vê-los, pois não apenas uma boca merece-o.
Conheço lábios que o projetariam com tamanha beleza que seria um ultraje adiá-lo. Conheço olhos que refletiriam tão bem a luz que, seriam capazes de iluminar toda uma estação guiando aqueles que ainda possuem nuvens sobre si como que fossem capazes, não de extingui-las, mas fazerem delas menos acinzentadas.
Gosto tanto desses olhos e como olham para mim que dói a lembrança de um futuro sem tais tão diariamente como me deixei viciar. Antes, apenas não conhecia, apenas não sabia da tamanha diferença que me fariam. Hoje, temo por um dia que não os tenha mais, e temo ainda mais por um dia em que não sejam tão viciantes como hoje são.


Desejo permanecer assim: Embriagada, como quem bebe sempre da mesma fonte e prefere morrer de overdose à uma ressaca que limita a memória.


Não deixem de sorrir, seja com os olhos ou lábios: Preciso deles.

domingo, 13 de novembro de 2011

Deseja uma rosa? Ofereço também um livro para que, depois de murcha, lá permaneça em segredo.


Um caminho com balaços e muito algodão doce. Ah como quero balanços... Para olhar lá de cima até onde cheguei; para que lá de cima possa tocar nuvens e trazê-las como uma chuva doce (como um sorvete que derrete pelas mãos quando você não consegue contê-lo na casquinha restando apenas mãos e lábios de um colorido mágico que te faz devorar todo aquele sabor como quem não quer perder nem a ultima gota).
Ah... A ultima gota, tão disputada mesmo não tão gelada mais.
Quero gotas pelo chão. Um caminho para que aquele capaz de sentir o aroma, aquele que também deseje doces nuvens possa me encontrar (mas apenas esses servirão, apenas esses serão capazes de me acompanhar ou mesmo de um dia visitar-me sem fugir).
Não desejo os realistas demasiados que riem de meu caminho por considerarem-se maduros demais para ele. O deformam e fazem-me achar mais perdida do que realmente estou (esses entrarão em fuga na primeira oportunidade). Deles estou cheia e prefiro que se mantenham longe de meus jardins ou mesmo da janela de meu imóvel (acredite, se você fosse como eles não teria chegado até essa altura do caminho, as flores e morangos teriam te incomodado a ponto de ter saído da estrada no primeiro arco-íris).
Vem comigo? Faz-me companhia e avisa-me de um possível curupira antes que ele conclua que somos invasores?
Mas tenho que avisá-lo, não poderá mais desistir. Meu jardim te entorpecerá e caso não esteja certo de tua vontade, depois não poderá contar meus segredos a nenhum outro estranho. Caso tente, em seus sonhos estarei a te perturbar e se arrependerá de tal forma que não saberá como se livrar de tais espinhos, as rosas simplesmente murcharão em tuas mãos e não terá mais nada a fazer, nada poderá conter.
Ei, acalme-se. Isso só acontecerá se você tentar me ferir, trair minha confiança, maltratar qualquer flor de meu jardim.
Mas agora que continuou comigo, tenho que agradecê-lo. Obrigado por aceitar, agora sei que não estarei mais só. Sei que poderei ir a qualquer lugar.
Avista aquela colina ao longe? Aquela por detrás do rio. O que achas de começarmos por lá à procura de um lugar mais alto de onde possamos estar a salvo dos espinhos das roseiras ou mesmo dos ramos daquela abóbora que se espalha pelo chão? Sim, para que não nos arranhemos ou tropecemos e assim possamos continuar caminhando sãos e salvos por todo o bosque, por outros bosques, por até onde desejarmos que esse jardim vá.
Esteja livre para pintar tudo que desejar, como desejar. Cores, texturas ou mesmo os sabores: Faça-os a  teu modo.

Meu jardim agora tornasse também teu.
                                                                                                                                             13.11.11

sábado, 12 de novembro de 2011

Num calabouço de olhos abertos. Num cinema de óculos escuros.



A cada dia, mais falta sinto, mas tem dia que nada sinto e tudo parece como antes.
Tem dia que volto ao passado, recordo os fatos e preencho-me com uma glória que já se foi.
Tem dia que agradeço por não ser mais como antes, por não ter como antes aquele imenso vazio.
Já outros, brigo com o presente por não ter o sucesso da falta de necessidade do que hoje conheci.
Brigo comigo por ter me permitido e agora saber o que quero e mesmo assim não poder.
Não mais é tão fácil, não mais é tão prático dizer não e fechar os olhos para o que se passa em minha frente.
Devo renunciar, tenho que me concentrar no que agora interessa, já que agora tenho pressa (essa que antes não havia).
Não havia tão intensa; não a via com frequência: Numa semana talvez, mais que de mês em mês.
Não desejava rimar pobre ou ricamente, pois é triste o que se sente quando se pensa no que já não se tem.
Mas é difícil evitar quando surge a ideia e o medo de perdê-la te faz registrar.
Sem melodias ou ritmo vou escrevendo e me condenando por não estar estudando nesses minutos subsequentes.
Mas voltarei em pouco tempo para o que nesse momento é importante concretizar:
Uma fase
Um ciclo
Uma prisão

Um vão do qual preciso me libertar.


                     É inútil saber o que passa em sua frente quando não se pode abrir os olhos.

25.10.11

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Justifique:


Porque eu olho por meio século para algo novo que faço, que gosto.
Porque detém minha atenção até a satisfação total, até a obsolescência total-ou não.
Porque tudo que gosto me prende; porque nem tudo que tenho me prende.
Porque vivo temendo escolhas e as faço tão inconsciente quanto pulsa meu coração (e isso me conforta numa dimensão tamanha que não sou capaz de determinar).
Porque o que eu tinha e não me faz mais falta não era assim tão meu.
Porque quem eu tinha e não me faz mais falta não era assim tão meu.
Porque não só a memória, mas a vida seleciona para sobreviver-por inteligência.
Porque gavetas amarrotadas de papéis amassados são inúteis-pra isso servem os trituradores de papel.
Porque ao passo que me desfaço de recordações, factuais ou fantásticas, algo me lembra de que havia uma cópia na escrivaninha ao lado, da qual não me recordava.
Porque nem sempre trituro as cópias encontradas depois, nada é por acaso, afinal.
Porque em meio ao que me lembra lágrimas, sorrisos aparecem.
Porque não sei mais o que justifico.
Porque não lembro mais qual a pergunta.
Nem sei mais se havia pergunta.
Mas havia algo:
Uma cascata de ideias com necessidade de ser registrada.

Um orvalho: Tremo pelo frio; sorrio porque é belo.
                                                                                                                                              31/10/11

sábado, 29 de outubro de 2011

Quem sabe não estou desenhando...


Desenharia se soubesse fazer mais que cópias, portanto escrevo.
Mas, se você considerar que releituras nada mais são do que escrever o mesmo que antes usando palavras que não foram ditas, talvez meus textos também sejam cópias, cópias da minha vida (uma tela inacabada num canto que visito sempre que acordo- ou mesmo antes).
Talvez ainda, esteja desenhando de fato, não com traços nem cores, apenas palavras.
Mas cá entre nós, escrever é como um desenho infinito: Sua cena sempre será diferente da minha e do outro que lê posteriormente, ou mesmo daquele que leu antes de você (seus morangos não serão tão vermelhos quanto os meus; minha casa não será tão grande quanto a sua).
E assim, não só eu estarei desenhando, você também o estará- com os olhos, certamente (o que pode ver agora?).
Ainda, não há como copiar um pensamento: Sua cena, só você verá. Será original, portanto, será sua somente.
Sua aquarela não possuirá as mesmas cores da minha; sua tela não terá o mesmo tom; seu avental não terá as mesmas manchas; o pincel também será diferente (consegue contornar os cantos sem borrar?).
Leia e componha seu quadro comigo (visite-me).

Não há motivos para medos. Vá ao porão e abra a porta somente para quem desejar que pincele com você.

  ~ Qual imagem você vê agora?

                                                                          29/10/11

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sua memória não guarda minha feição, mas sim, cá estou.

Há muito vivo num camarote. Há muito tenho usado binóculos para reconhecer pessoas, situações, ver a peça que se passa ou mesmo a orquestra tocando. Muitas já foram as apresentações no palco principal: de Romeu e Julieta ao Menestrel, também de Shakespeare. Meus ouvidos estão atentos a cada ato, porém, nem sempre tem sido possível perceber cada detalhe; tenho uma visão privilegiada daqui de cima, mas tudo tem seu preço: não posso interagir sempre-penso se isso não tem sido minha escolha.
Digo vivo, pois não sei ao certo se ainda estou lá, mas não vejo com toda claridade o nascer ou mesmo repousar do sol. Algumas pessoas passam aqui pelo camarote, assistem à peça e se vão. Outras permanecem por mais tempo, admiram a orquestra e assistem a vários atos, emocionam-se, discordam, gostam, não gostam; deixando sempre alguma palavra que irá compor minha permanência aqui.
Vejo também aqueles que se sentam lá em baixo. Eles não tendem a prolongar tanto a visita ao teatro. Geralmente aparecem, mais de uma vez possivelmente, assistem a uma apresentação e se vão, sempre em visitas pontuais. Mas, confesso aqui que seus rostos raramente tem sido familiares para mim. Sim, há aqueles que sobem aos camarotes e com os quais venho a conversar, falar sobre a peça ou mesmo extrapolá-la.
Há momentos em que me movimento para olhar outros camarotes, outras que como eu estão aqui a muito tempo. Não sei seus motivos e opto por não julgar, não vejo muitos, confesso, e às vezes é difícil reconhecer que há alguém ali, algumas pessoas tendem a esconder de si mesmas onde vivem, preferindo tentar enxergar um mundo que de tão fantástico passa a confundi-las e a quem estar o seu ao redor.
Não digo com isso que meu mundo seja o mais simples ou mesmo mais fácil de ser percebido, esteja claro que ver a vida por um binóculo não é a mais comum das ideias ou mesmoa mais aceita por alguém que você encontre na rua, num dia de rotina. Por isso minha preferência pela neutralidade na opinião. Por isso não sei ao certo se elas realmente lá vivem ou apenas estão em busca do melhor local, do melhor ângulo para suas vidas.
De uns dias pra cá, tenho percebido frestas nas paredes perto das escadas que dão acesso aos camarotes mais altos, num dos quais creio ainda me encontrar. Sim, se é o que você pensou, não vivo sentada todo o tempo, e meu espaço não é tão pequeno quanto posso ter demonstrado ao longo dessa pequena dissertação de minha estadia aqui. Desloco-me por todo espaço que tenho, às vezes ando pelo teatro quando o palco está vazio e o faxineiro não trabalha, geralmente quando as luzes estão apagadas. Arrisco dizer que conheço o caminho para me permitir na falta de luz, ao passo que confesso tropeçar num degrau ainda não totalmente assimilado, ou mesmo numa cadeira que juraria não haver ali.
E assim, durante as noites que saio a percorrer outros camarotes, outras escadas, o palco principal ou mesmo camarins, vejo o quão imenso é esse mundo feito por minhas mãos, ou arrisco dizer, por minha mente, que em sua fertilidade- diriam uns- necessidade de um mundo próprio por não me encaixar no real-diriam outros. E, vejo ainda, o quanto há para ser explorado (talvez por isso tenha adiado minha saída, saber que há algo por aqui que ainda não conheço faz com que eu queira permanecer- como quem quer descobrir quantos granulados existem num brigadeiro contando aqueles que tenham, acidentalmente, caído em sua fôrma).
Tenho recebido visitas cada vez mais ilustres, cada vez mais permanentes, mas que fazem parte do mundo lá fora e insistem para que vá assistir num fim de tarde, o pôr do sol. Sei que a rua que elas moram é distante das antigas visitas, e talvez por isso tenham permanecido mais, talvez por isso eu tenha ficado tão tentada a fazer uma visita lá fora. Começaria pela noite, claro, não desejo que notem, como um susto, uma moradora que não veem há anos, ou mesmo que nunca tenham visto, saindo de um teatro, quando ao menos ninguém se lembra de tê-la visto entrar.
Caso esteja se perguntando como não podem me ver, se quando o teatro lota há quem compartilhe comigo o camarote ou mesmo do salão lá de baixo seja possível perceber-me, digo que esses que me veem e memorizam minhas feições são os mesmo que se tornam importantes e continuam a fazer visitas. Aquele que notam minha feição, uma vez ou outra, esquecem-na facilmente, sua seletiva memória não guarda informações suficientes para um posterior reconhecimento, já que aqui é necessário mais que uma memória visual – ou fotográfica- para reconhecer um velho rosto.
Mas sim, minhas mais recentes visitas têm vindo numa frequência estranhamente surpreendente. Passei um tempo, para ser eufêmica, vivendo a explorar, no escuro da acomodação visual, cada detalhe das paredes, instrumentos deixados, corredores, caixas de som, que já tive medo da possibilidade de um ‘estranho’ permanecer tanto, talvez pela certeza de uma dependência, talvez pelo medo de uma perda.
Sendo mais direta, se dessa vez também não ocorrer uma cascata de ideias que adie ainda mais a apresentação de minhas ilustres visitas, teria muito do que falar delas aqui, teria muito a compartilhar com você, que vem visitar-me também, sobre a passagem dessas, sobre as peças as quais discutimos, as desbravações no escuro, as quedas e tropeços, mas, esteja certo de que se eu arriscasse contar todas essas horas aqui, nesse parágrafo, estaria cometendo um  crime por assassinar momentos guardados em gavetas que agora não tenho acesso.
As primeiras visitas foram de reconhecimento e outrora, elas também já fizeram parte do salão que não nota minha presença. Não subiram direto ao meu camarote e começaram a fazer visitas noturnas, até por que caso tivessem tido tal teimosia, provavelmente suas visitas teriam cessado, não é possível invadir de forma tão brusca e irresponsável um local quase que sagrado.
De lá do salão, subiram aos camarotes cada vez mais próximos do meu até que pudesse reconhecê-las mais de perto, até que quando cá, pudéssemos trocar palavras, críticas sobre a peça, extrapolá-la, enfim. Talvez tenham sido mesmo as primeiras visitas a propor-me sair do teatro, mesmo que não me convencendo a primeira instância. Importantes mesmo assim, queriam mostrar-me as ruas e o aroma do café recém- passado saindo da padaria, do pão de queijo recém- assado ou mesmo da torta de morango exposta no balcão da delicatessen.
Sim, encantei-me com todos os aromas e gostos que poderia conhecer, mas, permaneci sobre a guarda dessa que me visitava. Deixava que ela contasse-me sobre tudo que já havia provado acreditando fielmente em suas palavras, acreditando como se já tivesse vivido, com a mesma veracidade que teria, caso a protagonista fosse eu.
Sim, você pergunta como posso ter incorporado tanto as experiências dela, como não tinha curiosidade para sair e sentir eu mesma a torta no balcão, e não só, curiosidade de prova-la. Mas havia, tanto havia que, como uma criança diante de uma caixa de chocolates lacrada, meus olhos brilhavam pela possiblidade de poder estar lá, mas havia o lacre, e esse não seria aberto só pelo fato de querer comer os chocolates.
Tinha que ter a ferramenta certa, a força certa, eu tentei rompê-lo de qualquer jeito, tentei quebrar a porta do teatro mas quando percebia-a intacta, desesperava-me, já que por alguns segundos o que não era vontade de sair de vez, transformava-se numa necessidade monstruosa de sair dali, de provar xícaras e xícaras de café, de embebedar-me com todo chocolate que pudesse, de provar a torta de morango tão prometida. Como um surto psicótico que quebrava meus ossos pela força que eu fazia contra aquela porta, pelo medo que me assolava, pelo desespero de não mais sair dali, pela pressa... Por tudo que era prometido, por tudo que eu imaginava conhecer... Até que o eco, de uma soco meu contra a porta, naquela noite, soou tão alto que meus movimentos cessaram, meus músculos fadigados não mais se moviam, até que diante da inutilidade de minha insistência restaram apenas lágrimas, apenas o clichê tão odiado: Tudo tem seu tempo.
Essa noite, vale ressaltar, não havia alguém ali comigo. Não houve testemunho para meu momento de insanidade. Momento que eu só dimensionaria depois, que só depois conseguiria compreender.
Amanhece e eu devo voltar a meu camarote antes que as portas se abram, antes que os artistas venham ensaiar ou mesmo alguém apareça para limpar o salão.
                                                                                                                                    17/10/11

Um novo caminho, não tão esperado assim.

A ideia não terminou e não há como ter fim.
Ainda desejo a torta no forno.
Só não sei quando poderei chegar, há muito que se fazer no caminho, outros trilhos foram escolhidos e esses eu não conheço, não foram planejados.
O cobrador garante-me que chegarei a meu destino, mas não entendo a mudança de planos, ele insiste ser necessário, insiste que será melhor.
Pergunto pelos outros passageiros, alguns desceram desde minha chegada ao trem. Pergunto o porquê do caminho deles não ter sido alterado, o cobrador apenas responde:
- Não atrele seu destino ao dos outros, você não sabe quando eles entraram no trem. Estou aqui a tempo suficiente para garantir que não há porque tantos temores. Os caminhos nunca são tortos, os túneis sempre tem fim... Teu imóvel estará lá.
Minha cabeça pesa com seu discurso, penso como ele sabe do imóvel.
Conforto-me com o aroma das rosas na janela.
Não sei quanto tempo ainda levará a viagem, talvez não deva olhar tanto para o relógio.
Continuo a ter pressa, contudo.
Adormeço.
                                                                                                                     14/10/11

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma casa, um tanto engraçada, com paredes de areia e goteiras no teto.

Eu nunca acreditei realmente que toda aquela areia fosse formar um castelo sólido o bastante para durar até uma próxima geração. Sem desejar que as águas invadissem suas janelas, mas ao mesmo tempo sem acreditar que ele agüentaria uma correnteza mais forte. Eu permaneci nesse castelo frágil querendo viver ali até quando ele conseguisse se manter de pé; alimentando a mais ínfima esperança e aguardando a metamorfose dessa até um inseto verde que entraria em minha casa e traria boa sorte. Como quem quisesse viver aquilo tudo até quando suas pilastras fossem resistentes o suficiente para conter a fúria de um mar que, sabia eu, viria aos poucos trazendo consigo novas águas, novos sais de um outro lugar para que, depois que derrubasse nosso castelo, nos levaria consigo para uma ilha ou continente, talvez onde nossas novas moradas fossem construídas não mais com areia, não mais tão próximo do litoral. 
Foram anos de castelo construído, e em todo esse período alguns dos moradores mudaram-se para um outro, ou mesmo já partindo espontaneamente para àquela ilha para a qual só seriamos levados depois. A própria construção às vezes derrubava uma pilastra, mas sempre algo se mantinha de pé, seja pelo desejo de quem estava construindo, seja porque era importante que se mantivesse de pé para só depois percebemos até quando fomos capazes de construir.
Certo que alguns se convenciam que suas paredes possuíam uma cor mais viva do que realmente tinham; chegava ao extremo do conto de fadas transformando o que era uma brincadeira de criança num palácio de reis (como quem quisesse um dia se convencer de suas próprias ilusões e achar que estava sentado numa cadeira de posse de uma coroa). Certo também que houve quem preenchesse as falhas na areia molhada com um barro mais sólido para quando alguém de fora avistasse nossa construção não fosse capaz de perceber suas falhas mesmo que esse barro fosse para tapar outras no alto do castelo a salvo da visão de curiosos mas que, evitariam pingos de chuva dentro de casa durante a noite.
Mas nenhuma das frustradas tentativas de transformar areia em mármore evitou que a correnteza levasse-nos para outro local, aos poucos desfazendo o que levamos anos para construir. Toda aquela areia foi aos poucos descendo, descendo até se depositar no fundo do mar e, quando chegamos à outra margem, nos restou um pouco suficiente para um cômodo. Porém o tempo não tardou a passar e a revolta do mar não cessou. Vieram dilúvios afastando os construtores até que para cada um só restou um grão de areia, não mais capaz de reconstruir a antiga morada apenas de deixar na saudade o que um dia foi, ou se desejou que tivesse sido, a casa de um grupo de pessoas, que com desavenças e algumas afinidades, acolheu cada novo morador e, da sacada despediu-se daqueles que partiam, por 14 não tão longos anos.
                                                                                                                               05/03/2011

Um pouco de algumas poucas palavras.


Azul, rosa, não sei bem... Algo de bom está no ar e meus sonhos talvez estivessem certos por mais que tenham me assustado. É tá ai, tudo certo, afinal, algo de muito bom costuma assustar aqueles desavisados ou desacostumados com o Sol toda manhã. Também não está aqui nenhuma dramática ou mesmo depressiva então mudemos o vocabulário para tal não parecer tal desatino.
Se algo me espera, eu espero estar preparada para tanto, e, se por algum motivo meus pressentimentos, sentimentos, terceiro sentido quem sabe, estejam errados que seja o que for, mas que seja bom.
Bom, sempre há expectativas e essa sou eu, um defeito, uma característica apenas, um modo de viver, vai saber, entretanto esperar mais tem seu lado bom, afinal, a cobrança faz o aperfeiçoamento e esse leva ao sucesso, que sejamos bem sucedidos então.
Sucesso: mais que sorte, mais que lotérica dependente do esforço e da concretização de ideias, atitudes e daquela coragem guardada para o futuro, lá no fundo, protegida de qualquer desesperança que possa aparecer. Mas essa nem sempre está tão evidente quanto devia; esse é o problema do futuro, a gente nunca sabe quando as prioridades vão mudar.
E as mudanças mesmo fazendo parte da vida ainda nos pegam de surpresa, mas quem disse que se acostumar é fácil ou mesmo agradável? Se fosse, não reclamaríamos da rotina quando os trabalhos tomam as 24 horas do dia, ou menos... Sobra um tempinho para dormir, o que engraçado, o tempo que nos resta não aproveitamos, pois nosso consciente vai descansar. Opa, nos acostumarmos então não é tão bom assim, afinal.
Resta-nos ceder as mudanças, não jogar tudo pra cima, jamais desistir, apenas deixar que as coisas aconteçam, mas confesso que nunca entendi bem este dito: “Deixar que as coisas aconteçam como devam acontecer” afinal, se somos livres para nossas escolhas, se podemos dizer não, sair pela tangente quando a curva é praticamente certa, como deixar as coisas acontecerem como deveriam, afinal... Como é que deveriam acontecer? Outro: “nada vai acontecer se não fizermos nada”, mais um paradoxo: Se fizermos nada, estaremos dormindo, de “cara para cima” ou, comendo pipoca, largado no sofá? Mas, tais não seriam coisas feitas por nós? Então as coisas acontecerão sim, algo acontecerá, daí ser o que nós esperamos já é outra história... Mas que algo acontece, sempre acontece já que se nem depois da morte, pra quem tem fé, tudo acaba, que dirá para um fiel durante a vida.
O caso é ser fiel, não digo “o problema é ser fiel” já que seria uma solução. não significa acreditar num futuro distante e deixar tudo na mão do famoso destino, é como um sentimento: Cada um concebe de uma forma, porém para uns ele nem existe, é apenas consolo por algo perdido; já para os fieis verdadeiros é algo que toma o corpo além do físico e faz brotar uma esperança, uma paz, um sopro que preenche a vida novamente.
Não há uma ideia principal a ser concluída, acredito. Talvez a vida seja assim: Um pouco de cada coisa, e como cada parágrafo desse texto, cada dia com seu tema. O seguinte poderá vim com algum resquício do que passou e dessa forma nada se conclui permanentemente. Ainda, se até aqueles que se vão deixam sua marca e assim perpetuam-se, o que dizer de uma simples passagem: das 23:59 para às 24:00h?
                                                                                                                                                      17/06/2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Desejosa sou.


Quero escrever uma poesia metafórica para que o mais simples entenda, e o mais rebuscado fique a mingua.
Quero entender o porquê de meus medos insanos; dúvidas simples e receios duvidosos.
Não quero deixar que a água corra sem poder controlar, mas terei que me conformar com o curso do rio; caso queira alcança-lo deverei correr e lançar-me quando chegar no ponto certo.
Quero saber qual é o ponto certo.
Quero saber a hora, até quando eu poderei decidir, quando já não será obsoleto demais e nada mais adiantará, para que não me afogue em vão ou no caso de uma cascata, consiga encontrar uma margem a tempo.
Caso descubra o ponto certo, poderei mergulhar sem medo de perder a noção do tempo, do espaço e todas as teorias sobre suas dimensões.
Quero esquecer todos os clichês, não os suporto mais, e ver-me caindo neles é no mínimo, decepcionante.
Quero saber me moldar e fazer com que todos os moldes caibam dentro de mim.
Para que não fique lotado, para que eu não tenha crises de identidade, para que seja natural.

Quero não mais roer unhas, mas... elas estão pequenas, ruins de pintar.
Quero pular de asa delta.
Que cappuccino com chantili.
Quero torta de limão, alemã e holandesa, caso tenha.
Quero lembranças e saudades, para saber que meu passado foi escrito e alguma mão ajudou--me.
Quero-me à prova.
Quero superar medos.
Quero simplesmente me superar.

Quero tanta coisa que caso não caiba numa vida, peço a Deus para Ele dê a mim tempo de querer mais, antes sobrar desejos à temer um futuro branco, sem ao menos manchas acidentais.
                                                                                                                                                        28/07/2011

Um doce, muitos sabores.

  
Infinitas sensações. Sim... Assim ele pode ser descrito.


Das mais efêmeras àquelas que perduram por horas...
Infinitos significados, em toda sua extensão.
Dos menores aos mais aprimorados;
Dos rememoráveis aos amargos;
Permitidos ou roubados;
Por desejo ou amor (por vontade também, por que não?);
Independente da cor da fôrma...
Podem ser grandes e sutis;
Curtos e intensos;
Contidos ou espalhafatosos;
E cada um deles trará um sabor. Cada um deles trará um significado, uma lembrança, um momento, uma pessoa.
Cada um será único.
Sejam poucos, sejam muitos;
Sejam presentes ou furtos...
Apenas por amnésia serão esquecidos. E talvez, mesmo assim lá no fundo haverá a lembrança adormecida aguardando uma recordação para se sentir novamente, para se desejar novamente.
Os mais raros serão mais os procurados (até mesmo por aqueles que dizem desejar aos montes, independente de onde venham).
Os ingredientes mudam, e quanto melhores, mais disputados serão.
Mais raros serão.

Afinal, como não dizer: Com amor, mais caros serão.
                                                                                                                                                       28/08/2011

Três Rios.

São três rios: o terceiro provavelmente desague no mar e fuja, o segundo, porém, meu vizinho, está perto demais mas suas águas não se misturam com as do meu; sua margem é outra, mas posso sentir seu cheiro, e ainda avistar as aves que vem tentar a sorte com algum plâncton mal avisado...
O terceiro me tenta, chega próximo demais, suas águas são quentes, sua hálito é bom, seu oxigênio me embebeda, seu curso me deseja, ele não diz, mas sei que poderá chegar a hora da inevitável confluência, e não terei mais o que fazer quando suas águas já tomarem posse de meu leito.
Enquanto ele me espreita, continuo a sentir o cheiro do meu vizinho, tão perto... Por que não lança suas águas sobre esses pequenos cílios e vem se permitir em meu talvegue? Porém, não desejo que se assuste; não quero que se afaste mais ainda de minhas margens; apenas permita-me continuar a sentir. Não gosto, de fato, das aves que vão até ti. Não gosto delas, não gosto que te espreitem e desejem teus peixes, tua vida, teu ar.
Poderia continuar olhando apenas, sentindo, admirando teu arco íris quando a umidade aumenta. Poderia ficar aqui até o sol desejar me levar com ele, porém, tenho medo de que minha espera não seja suficiente, mas sinceramente? Persiste a esperança que ele (o sol) leve um pouquinho de ti também, e nos encontremos em outro lugar, não mais da mesma forma, não mais com os mesmos cheiros, mas ainda assim seriamos nós; ainda restaria a essência.
Se assim fosse, então não precisaria mais te espreitar depois dos cílios, poderia olhar diretamente, aquele terceiro rio não mais em embebedaria já que o teu ar seria suficiente para não haver mais espaço para outro, se quer para esse desejo.
                                                                                                                                                        15/08/2011

CompactoImóvel.


Escape ou tentativa frustrada, não sei bem, talvez apenas a esperança de libertar minhas palavras para que digam o que eu preciso ouvir já que outras bocas não estão me surpreendendo tanto mais ( Na verdade, não sei quando elas realmente me surpreenderam); já perdi a conta de quanto tempo faz que não ouço algo já não havia pensado.
Creio que já tenha usado de variadas formas de evasão, mesmo inconscientemente.
Creio que deveria apenas exigir daqueles o que eu dou.
Creio que deveria mergulhar num vulcão e só depois me preocupar se ele é ou não instinto.
Menos satisfações, menos perguntas, menos opiniões... Apenas um ouvido, nem peço dois;
Queria ter a sabedoria que me admitem; a inteligência que me designam.
Escreverei meu nome em todos os cadernos e papéis que cheguem até mim se assim detiver a atenção de um estranho que o olhe sem querer. Mas depois pensarei e resolverei que isso não bastará, já que não contaria minha vida a um passageiro que talvez só veja novamente numa outra estação, que talvez nem lembre meu nome (como poderia compartilhar algo tão íntimo sem o peso de não saber como ele usará tais informações?).
Apenas não sei.
Meu trem parte, olho pela janela aquele estranho, mas seus olhos aguardam atentamente o próximo trem que chegará em poucos instantes, ele não poderá deixa-lo passar, o próximo tardará e ele precisa chegar em casa, estão esperando por ele, o café esfriará e as torradas não serão tão crocantes caso ele se atrase...
Gostaria de uma xícara de café quente a minha espera; sei que correria para não deixa-la esfriar, sei que as torradas ainda estariam no forno quando chegasse, pois jamais arriscaria perder seu sabor. Chegaria cedo, ajudaria a por a mesa e lavaria todos os pratos, com prazer.
Mas não há, meu trem segue para um hotel e não mais chegarei para o café; perdi o que passou e estarei 2 horas atrasada, já estarão dormindo, colocarei minhas malas na cama e talvez tome um chocolate gelado, não tem tanta importância mais.
Sem pratos para lavar, mesa para pôr, cama para arrumar...
Sem torradas a espera, saudações, sem abraços...
Um abraço.
Pela manhã partirei do hotel, talvez pegue um taxi à procura de uma pequena casa. Não precisa ser grande e é mesmo bom que não seja, chega de espaços vazios. Que ela tenha cômodos compactos para sempre permanecer ocupada, completa.
Espero encontrar uma recém construída para que não haja lembranças dos moradores passados, marcas de um xícara quente esquecida na mesa, pelos no sofá, cortinas; apenas o cheiro da tinta, apenas a sensação de que está tudo novo, intacto. Um compacto cômodo que me acolha e me molde, que eu o molde com todas as sensações que tiver.
Não me importo com a casa vazia, será minha daqui a um tempo, não deixarei minhas sensações para outro viajante que também desejará um compacto imóvel.
Talvez faça um jardim para os que cheguem, talvez plante uma roseira num canteiro na janela, talvez existam pinguins em cima da geladeira.
Mas a viagem ainda demorará em torno de 25 min, já é um tanto escuro, posso ouvir o canto das cigarras e avistar os vaga-lumes luzindo a procura de atenção. O vento mexe meus cabelos e sinto que ele deseja conversar, meus ouvidos não escutam-no, minha mente se distrai, não há tantos passageiros, os presentes dormem e sua indiferença é semelhante a dos meus recentes interlocutores.


Penso no vulcão talvez instinto;
Na sabedoria que dizem que eu tenho;
Em meu nome escrito em vários cadernos;
Na xícara de café aguardando o desconhecido da estação;
20 min.
Nos compactos cômodos;
No jardim ainda não plantado;
Nas rosas na janela;
15 min
No canto das cigarras;
Nos vaga-lumes a acasalar;
Na escura noite que se molda;
10 min
Nas famílias dos que dormem;
Em sua indiferença;
No vento soprando meus cabelos;
5 minutos
 Ainda penso no compacto imóvel.
30 segundos
Avisto a estação;
Avisto apenas um banco;
Não há quem receba os que chegam;
Os viajantes continuam a dormir;
O cobrador não se levanta;
O motorista não para;
2 horas.
                                                                                                                                                       28/08/2011