Sim, porque não será extenso; não haverá lugar para vazios.
As palavras aqui ocuparão parte do espaço: algumas gavetas,
geladeira, a cima das mesas, parte do armário do banheiro...
Mas não todo o imóvel.
A outra parte será destinada a quem desejar visitá-lo, tomar
por empréstimo alguns vocábulos moldá-los, ou mesmo senti-los.
Não será necessário bater a porta sempre que se desejar entrar,
se a causa for justa e as palavras respeitadas,os visitantes serão
sempre bem vindos.
Caso deseje deixar de lembrança alguns termos poucos ou muitos
não se preocupe com a disponibilidade de espaço,
o compactoimóvel só estará completo para aquele que não
gostar do aroma da torta de morango no forno, das rosas na
janela ou mesmo para quem se sinta grande demais
a ponto de não caber em seus cômodos.

Todos os demais,
sejam bem vindos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma casa, um tanto engraçada, com paredes de areia e goteiras no teto.

Eu nunca acreditei realmente que toda aquela areia fosse formar um castelo sólido o bastante para durar até uma próxima geração. Sem desejar que as águas invadissem suas janelas, mas ao mesmo tempo sem acreditar que ele agüentaria uma correnteza mais forte. Eu permaneci nesse castelo frágil querendo viver ali até quando ele conseguisse se manter de pé; alimentando a mais ínfima esperança e aguardando a metamorfose dessa até um inseto verde que entraria em minha casa e traria boa sorte. Como quem quisesse viver aquilo tudo até quando suas pilastras fossem resistentes o suficiente para conter a fúria de um mar que, sabia eu, viria aos poucos trazendo consigo novas águas, novos sais de um outro lugar para que, depois que derrubasse nosso castelo, nos levaria consigo para uma ilha ou continente, talvez onde nossas novas moradas fossem construídas não mais com areia, não mais tão próximo do litoral. 
Foram anos de castelo construído, e em todo esse período alguns dos moradores mudaram-se para um outro, ou mesmo já partindo espontaneamente para àquela ilha para a qual só seriamos levados depois. A própria construção às vezes derrubava uma pilastra, mas sempre algo se mantinha de pé, seja pelo desejo de quem estava construindo, seja porque era importante que se mantivesse de pé para só depois percebemos até quando fomos capazes de construir.
Certo que alguns se convenciam que suas paredes possuíam uma cor mais viva do que realmente tinham; chegava ao extremo do conto de fadas transformando o que era uma brincadeira de criança num palácio de reis (como quem quisesse um dia se convencer de suas próprias ilusões e achar que estava sentado numa cadeira de posse de uma coroa). Certo também que houve quem preenchesse as falhas na areia molhada com um barro mais sólido para quando alguém de fora avistasse nossa construção não fosse capaz de perceber suas falhas mesmo que esse barro fosse para tapar outras no alto do castelo a salvo da visão de curiosos mas que, evitariam pingos de chuva dentro de casa durante a noite.
Mas nenhuma das frustradas tentativas de transformar areia em mármore evitou que a correnteza levasse-nos para outro local, aos poucos desfazendo o que levamos anos para construir. Toda aquela areia foi aos poucos descendo, descendo até se depositar no fundo do mar e, quando chegamos à outra margem, nos restou um pouco suficiente para um cômodo. Porém o tempo não tardou a passar e a revolta do mar não cessou. Vieram dilúvios afastando os construtores até que para cada um só restou um grão de areia, não mais capaz de reconstruir a antiga morada apenas de deixar na saudade o que um dia foi, ou se desejou que tivesse sido, a casa de um grupo de pessoas, que com desavenças e algumas afinidades, acolheu cada novo morador e, da sacada despediu-se daqueles que partiam, por 14 não tão longos anos.
                                                                                                                               05/03/2011

Um pouco de algumas poucas palavras.


Azul, rosa, não sei bem... Algo de bom está no ar e meus sonhos talvez estivessem certos por mais que tenham me assustado. É tá ai, tudo certo, afinal, algo de muito bom costuma assustar aqueles desavisados ou desacostumados com o Sol toda manhã. Também não está aqui nenhuma dramática ou mesmo depressiva então mudemos o vocabulário para tal não parecer tal desatino.
Se algo me espera, eu espero estar preparada para tanto, e, se por algum motivo meus pressentimentos, sentimentos, terceiro sentido quem sabe, estejam errados que seja o que for, mas que seja bom.
Bom, sempre há expectativas e essa sou eu, um defeito, uma característica apenas, um modo de viver, vai saber, entretanto esperar mais tem seu lado bom, afinal, a cobrança faz o aperfeiçoamento e esse leva ao sucesso, que sejamos bem sucedidos então.
Sucesso: mais que sorte, mais que lotérica dependente do esforço e da concretização de ideias, atitudes e daquela coragem guardada para o futuro, lá no fundo, protegida de qualquer desesperança que possa aparecer. Mas essa nem sempre está tão evidente quanto devia; esse é o problema do futuro, a gente nunca sabe quando as prioridades vão mudar.
E as mudanças mesmo fazendo parte da vida ainda nos pegam de surpresa, mas quem disse que se acostumar é fácil ou mesmo agradável? Se fosse, não reclamaríamos da rotina quando os trabalhos tomam as 24 horas do dia, ou menos... Sobra um tempinho para dormir, o que engraçado, o tempo que nos resta não aproveitamos, pois nosso consciente vai descansar. Opa, nos acostumarmos então não é tão bom assim, afinal.
Resta-nos ceder as mudanças, não jogar tudo pra cima, jamais desistir, apenas deixar que as coisas aconteçam, mas confesso que nunca entendi bem este dito: “Deixar que as coisas aconteçam como devam acontecer” afinal, se somos livres para nossas escolhas, se podemos dizer não, sair pela tangente quando a curva é praticamente certa, como deixar as coisas acontecerem como deveriam, afinal... Como é que deveriam acontecer? Outro: “nada vai acontecer se não fizermos nada”, mais um paradoxo: Se fizermos nada, estaremos dormindo, de “cara para cima” ou, comendo pipoca, largado no sofá? Mas, tais não seriam coisas feitas por nós? Então as coisas acontecerão sim, algo acontecerá, daí ser o que nós esperamos já é outra história... Mas que algo acontece, sempre acontece já que se nem depois da morte, pra quem tem fé, tudo acaba, que dirá para um fiel durante a vida.
O caso é ser fiel, não digo “o problema é ser fiel” já que seria uma solução. não significa acreditar num futuro distante e deixar tudo na mão do famoso destino, é como um sentimento: Cada um concebe de uma forma, porém para uns ele nem existe, é apenas consolo por algo perdido; já para os fieis verdadeiros é algo que toma o corpo além do físico e faz brotar uma esperança, uma paz, um sopro que preenche a vida novamente.
Não há uma ideia principal a ser concluída, acredito. Talvez a vida seja assim: Um pouco de cada coisa, e como cada parágrafo desse texto, cada dia com seu tema. O seguinte poderá vim com algum resquício do que passou e dessa forma nada se conclui permanentemente. Ainda, se até aqueles que se vão deixam sua marca e assim perpetuam-se, o que dizer de uma simples passagem: das 23:59 para às 24:00h?
                                                                                                                                                      17/06/2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Desejosa sou.


Quero escrever uma poesia metafórica para que o mais simples entenda, e o mais rebuscado fique a mingua.
Quero entender o porquê de meus medos insanos; dúvidas simples e receios duvidosos.
Não quero deixar que a água corra sem poder controlar, mas terei que me conformar com o curso do rio; caso queira alcança-lo deverei correr e lançar-me quando chegar no ponto certo.
Quero saber qual é o ponto certo.
Quero saber a hora, até quando eu poderei decidir, quando já não será obsoleto demais e nada mais adiantará, para que não me afogue em vão ou no caso de uma cascata, consiga encontrar uma margem a tempo.
Caso descubra o ponto certo, poderei mergulhar sem medo de perder a noção do tempo, do espaço e todas as teorias sobre suas dimensões.
Quero esquecer todos os clichês, não os suporto mais, e ver-me caindo neles é no mínimo, decepcionante.
Quero saber me moldar e fazer com que todos os moldes caibam dentro de mim.
Para que não fique lotado, para que eu não tenha crises de identidade, para que seja natural.

Quero não mais roer unhas, mas... elas estão pequenas, ruins de pintar.
Quero pular de asa delta.
Que cappuccino com chantili.
Quero torta de limão, alemã e holandesa, caso tenha.
Quero lembranças e saudades, para saber que meu passado foi escrito e alguma mão ajudou--me.
Quero-me à prova.
Quero superar medos.
Quero simplesmente me superar.

Quero tanta coisa que caso não caiba numa vida, peço a Deus para Ele dê a mim tempo de querer mais, antes sobrar desejos à temer um futuro branco, sem ao menos manchas acidentais.
                                                                                                                                                        28/07/2011

Um doce, muitos sabores.

  
Infinitas sensações. Sim... Assim ele pode ser descrito.


Das mais efêmeras àquelas que perduram por horas...
Infinitos significados, em toda sua extensão.
Dos menores aos mais aprimorados;
Dos rememoráveis aos amargos;
Permitidos ou roubados;
Por desejo ou amor (por vontade também, por que não?);
Independente da cor da fôrma...
Podem ser grandes e sutis;
Curtos e intensos;
Contidos ou espalhafatosos;
E cada um deles trará um sabor. Cada um deles trará um significado, uma lembrança, um momento, uma pessoa.
Cada um será único.
Sejam poucos, sejam muitos;
Sejam presentes ou furtos...
Apenas por amnésia serão esquecidos. E talvez, mesmo assim lá no fundo haverá a lembrança adormecida aguardando uma recordação para se sentir novamente, para se desejar novamente.
Os mais raros serão mais os procurados (até mesmo por aqueles que dizem desejar aos montes, independente de onde venham).
Os ingredientes mudam, e quanto melhores, mais disputados serão.
Mais raros serão.

Afinal, como não dizer: Com amor, mais caros serão.
                                                                                                                                                       28/08/2011

Três Rios.

São três rios: o terceiro provavelmente desague no mar e fuja, o segundo, porém, meu vizinho, está perto demais mas suas águas não se misturam com as do meu; sua margem é outra, mas posso sentir seu cheiro, e ainda avistar as aves que vem tentar a sorte com algum plâncton mal avisado...
O terceiro me tenta, chega próximo demais, suas águas são quentes, sua hálito é bom, seu oxigênio me embebeda, seu curso me deseja, ele não diz, mas sei que poderá chegar a hora da inevitável confluência, e não terei mais o que fazer quando suas águas já tomarem posse de meu leito.
Enquanto ele me espreita, continuo a sentir o cheiro do meu vizinho, tão perto... Por que não lança suas águas sobre esses pequenos cílios e vem se permitir em meu talvegue? Porém, não desejo que se assuste; não quero que se afaste mais ainda de minhas margens; apenas permita-me continuar a sentir. Não gosto, de fato, das aves que vão até ti. Não gosto delas, não gosto que te espreitem e desejem teus peixes, tua vida, teu ar.
Poderia continuar olhando apenas, sentindo, admirando teu arco íris quando a umidade aumenta. Poderia ficar aqui até o sol desejar me levar com ele, porém, tenho medo de que minha espera não seja suficiente, mas sinceramente? Persiste a esperança que ele (o sol) leve um pouquinho de ti também, e nos encontremos em outro lugar, não mais da mesma forma, não mais com os mesmos cheiros, mas ainda assim seriamos nós; ainda restaria a essência.
Se assim fosse, então não precisaria mais te espreitar depois dos cílios, poderia olhar diretamente, aquele terceiro rio não mais em embebedaria já que o teu ar seria suficiente para não haver mais espaço para outro, se quer para esse desejo.
                                                                                                                                                        15/08/2011

CompactoImóvel.


Escape ou tentativa frustrada, não sei bem, talvez apenas a esperança de libertar minhas palavras para que digam o que eu preciso ouvir já que outras bocas não estão me surpreendendo tanto mais ( Na verdade, não sei quando elas realmente me surpreenderam); já perdi a conta de quanto tempo faz que não ouço algo já não havia pensado.
Creio que já tenha usado de variadas formas de evasão, mesmo inconscientemente.
Creio que deveria apenas exigir daqueles o que eu dou.
Creio que deveria mergulhar num vulcão e só depois me preocupar se ele é ou não instinto.
Menos satisfações, menos perguntas, menos opiniões... Apenas um ouvido, nem peço dois;
Queria ter a sabedoria que me admitem; a inteligência que me designam.
Escreverei meu nome em todos os cadernos e papéis que cheguem até mim se assim detiver a atenção de um estranho que o olhe sem querer. Mas depois pensarei e resolverei que isso não bastará, já que não contaria minha vida a um passageiro que talvez só veja novamente numa outra estação, que talvez nem lembre meu nome (como poderia compartilhar algo tão íntimo sem o peso de não saber como ele usará tais informações?).
Apenas não sei.
Meu trem parte, olho pela janela aquele estranho, mas seus olhos aguardam atentamente o próximo trem que chegará em poucos instantes, ele não poderá deixa-lo passar, o próximo tardará e ele precisa chegar em casa, estão esperando por ele, o café esfriará e as torradas não serão tão crocantes caso ele se atrase...
Gostaria de uma xícara de café quente a minha espera; sei que correria para não deixa-la esfriar, sei que as torradas ainda estariam no forno quando chegasse, pois jamais arriscaria perder seu sabor. Chegaria cedo, ajudaria a por a mesa e lavaria todos os pratos, com prazer.
Mas não há, meu trem segue para um hotel e não mais chegarei para o café; perdi o que passou e estarei 2 horas atrasada, já estarão dormindo, colocarei minhas malas na cama e talvez tome um chocolate gelado, não tem tanta importância mais.
Sem pratos para lavar, mesa para pôr, cama para arrumar...
Sem torradas a espera, saudações, sem abraços...
Um abraço.
Pela manhã partirei do hotel, talvez pegue um taxi à procura de uma pequena casa. Não precisa ser grande e é mesmo bom que não seja, chega de espaços vazios. Que ela tenha cômodos compactos para sempre permanecer ocupada, completa.
Espero encontrar uma recém construída para que não haja lembranças dos moradores passados, marcas de um xícara quente esquecida na mesa, pelos no sofá, cortinas; apenas o cheiro da tinta, apenas a sensação de que está tudo novo, intacto. Um compacto cômodo que me acolha e me molde, que eu o molde com todas as sensações que tiver.
Não me importo com a casa vazia, será minha daqui a um tempo, não deixarei minhas sensações para outro viajante que também desejará um compacto imóvel.
Talvez faça um jardim para os que cheguem, talvez plante uma roseira num canteiro na janela, talvez existam pinguins em cima da geladeira.
Mas a viagem ainda demorará em torno de 25 min, já é um tanto escuro, posso ouvir o canto das cigarras e avistar os vaga-lumes luzindo a procura de atenção. O vento mexe meus cabelos e sinto que ele deseja conversar, meus ouvidos não escutam-no, minha mente se distrai, não há tantos passageiros, os presentes dormem e sua indiferença é semelhante a dos meus recentes interlocutores.


Penso no vulcão talvez instinto;
Na sabedoria que dizem que eu tenho;
Em meu nome escrito em vários cadernos;
Na xícara de café aguardando o desconhecido da estação;
20 min.
Nos compactos cômodos;
No jardim ainda não plantado;
Nas rosas na janela;
15 min
No canto das cigarras;
Nos vaga-lumes a acasalar;
Na escura noite que se molda;
10 min
Nas famílias dos que dormem;
Em sua indiferença;
No vento soprando meus cabelos;
5 minutos
 Ainda penso no compacto imóvel.
30 segundos
Avisto a estação;
Avisto apenas um banco;
Não há quem receba os que chegam;
Os viajantes continuam a dormir;
O cobrador não se levanta;
O motorista não para;
2 horas.
                                                                                                                                                       28/08/2011