Sim, porque não será extenso; não haverá lugar para vazios.
As palavras aqui ocuparão parte do espaço: algumas gavetas,
geladeira, a cima das mesas, parte do armário do banheiro...
Mas não todo o imóvel.
A outra parte será destinada a quem desejar visitá-lo, tomar
por empréstimo alguns vocábulos moldá-los, ou mesmo senti-los.
Não será necessário bater a porta sempre que se desejar entrar,
se a causa for justa e as palavras respeitadas,os visitantes serão
sempre bem vindos.
Caso deseje deixar de lembrança alguns termos poucos ou muitos
não se preocupe com a disponibilidade de espaço,
o compactoimóvel só estará completo para aquele que não
gostar do aroma da torta de morango no forno, das rosas na
janela ou mesmo para quem se sinta grande demais
a ponto de não caber em seus cômodos.

Todos os demais,
sejam bem vindos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Justifique:


Porque eu olho por meio século para algo novo que faço, que gosto.
Porque detém minha atenção até a satisfação total, até a obsolescência total-ou não.
Porque tudo que gosto me prende; porque nem tudo que tenho me prende.
Porque vivo temendo escolhas e as faço tão inconsciente quanto pulsa meu coração (e isso me conforta numa dimensão tamanha que não sou capaz de determinar).
Porque o que eu tinha e não me faz mais falta não era assim tão meu.
Porque quem eu tinha e não me faz mais falta não era assim tão meu.
Porque não só a memória, mas a vida seleciona para sobreviver-por inteligência.
Porque gavetas amarrotadas de papéis amassados são inúteis-pra isso servem os trituradores de papel.
Porque ao passo que me desfaço de recordações, factuais ou fantásticas, algo me lembra de que havia uma cópia na escrivaninha ao lado, da qual não me recordava.
Porque nem sempre trituro as cópias encontradas depois, nada é por acaso, afinal.
Porque em meio ao que me lembra lágrimas, sorrisos aparecem.
Porque não sei mais o que justifico.
Porque não lembro mais qual a pergunta.
Nem sei mais se havia pergunta.
Mas havia algo:
Uma cascata de ideias com necessidade de ser registrada.

Um orvalho: Tremo pelo frio; sorrio porque é belo.
                                                                                                                                              31/10/11

sábado, 29 de outubro de 2011

Quem sabe não estou desenhando...


Desenharia se soubesse fazer mais que cópias, portanto escrevo.
Mas, se você considerar que releituras nada mais são do que escrever o mesmo que antes usando palavras que não foram ditas, talvez meus textos também sejam cópias, cópias da minha vida (uma tela inacabada num canto que visito sempre que acordo- ou mesmo antes).
Talvez ainda, esteja desenhando de fato, não com traços nem cores, apenas palavras.
Mas cá entre nós, escrever é como um desenho infinito: Sua cena sempre será diferente da minha e do outro que lê posteriormente, ou mesmo daquele que leu antes de você (seus morangos não serão tão vermelhos quanto os meus; minha casa não será tão grande quanto a sua).
E assim, não só eu estarei desenhando, você também o estará- com os olhos, certamente (o que pode ver agora?).
Ainda, não há como copiar um pensamento: Sua cena, só você verá. Será original, portanto, será sua somente.
Sua aquarela não possuirá as mesmas cores da minha; sua tela não terá o mesmo tom; seu avental não terá as mesmas manchas; o pincel também será diferente (consegue contornar os cantos sem borrar?).
Leia e componha seu quadro comigo (visite-me).

Não há motivos para medos. Vá ao porão e abra a porta somente para quem desejar que pincele com você.

  ~ Qual imagem você vê agora?

                                                                          29/10/11

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sua memória não guarda minha feição, mas sim, cá estou.

Há muito vivo num camarote. Há muito tenho usado binóculos para reconhecer pessoas, situações, ver a peça que se passa ou mesmo a orquestra tocando. Muitas já foram as apresentações no palco principal: de Romeu e Julieta ao Menestrel, também de Shakespeare. Meus ouvidos estão atentos a cada ato, porém, nem sempre tem sido possível perceber cada detalhe; tenho uma visão privilegiada daqui de cima, mas tudo tem seu preço: não posso interagir sempre-penso se isso não tem sido minha escolha.
Digo vivo, pois não sei ao certo se ainda estou lá, mas não vejo com toda claridade o nascer ou mesmo repousar do sol. Algumas pessoas passam aqui pelo camarote, assistem à peça e se vão. Outras permanecem por mais tempo, admiram a orquestra e assistem a vários atos, emocionam-se, discordam, gostam, não gostam; deixando sempre alguma palavra que irá compor minha permanência aqui.
Vejo também aqueles que se sentam lá em baixo. Eles não tendem a prolongar tanto a visita ao teatro. Geralmente aparecem, mais de uma vez possivelmente, assistem a uma apresentação e se vão, sempre em visitas pontuais. Mas, confesso aqui que seus rostos raramente tem sido familiares para mim. Sim, há aqueles que sobem aos camarotes e com os quais venho a conversar, falar sobre a peça ou mesmo extrapolá-la.
Há momentos em que me movimento para olhar outros camarotes, outras que como eu estão aqui a muito tempo. Não sei seus motivos e opto por não julgar, não vejo muitos, confesso, e às vezes é difícil reconhecer que há alguém ali, algumas pessoas tendem a esconder de si mesmas onde vivem, preferindo tentar enxergar um mundo que de tão fantástico passa a confundi-las e a quem estar o seu ao redor.
Não digo com isso que meu mundo seja o mais simples ou mesmo mais fácil de ser percebido, esteja claro que ver a vida por um binóculo não é a mais comum das ideias ou mesmoa mais aceita por alguém que você encontre na rua, num dia de rotina. Por isso minha preferência pela neutralidade na opinião. Por isso não sei ao certo se elas realmente lá vivem ou apenas estão em busca do melhor local, do melhor ângulo para suas vidas.
De uns dias pra cá, tenho percebido frestas nas paredes perto das escadas que dão acesso aos camarotes mais altos, num dos quais creio ainda me encontrar. Sim, se é o que você pensou, não vivo sentada todo o tempo, e meu espaço não é tão pequeno quanto posso ter demonstrado ao longo dessa pequena dissertação de minha estadia aqui. Desloco-me por todo espaço que tenho, às vezes ando pelo teatro quando o palco está vazio e o faxineiro não trabalha, geralmente quando as luzes estão apagadas. Arrisco dizer que conheço o caminho para me permitir na falta de luz, ao passo que confesso tropeçar num degrau ainda não totalmente assimilado, ou mesmo numa cadeira que juraria não haver ali.
E assim, durante as noites que saio a percorrer outros camarotes, outras escadas, o palco principal ou mesmo camarins, vejo o quão imenso é esse mundo feito por minhas mãos, ou arrisco dizer, por minha mente, que em sua fertilidade- diriam uns- necessidade de um mundo próprio por não me encaixar no real-diriam outros. E, vejo ainda, o quanto há para ser explorado (talvez por isso tenha adiado minha saída, saber que há algo por aqui que ainda não conheço faz com que eu queira permanecer- como quem quer descobrir quantos granulados existem num brigadeiro contando aqueles que tenham, acidentalmente, caído em sua fôrma).
Tenho recebido visitas cada vez mais ilustres, cada vez mais permanentes, mas que fazem parte do mundo lá fora e insistem para que vá assistir num fim de tarde, o pôr do sol. Sei que a rua que elas moram é distante das antigas visitas, e talvez por isso tenham permanecido mais, talvez por isso eu tenha ficado tão tentada a fazer uma visita lá fora. Começaria pela noite, claro, não desejo que notem, como um susto, uma moradora que não veem há anos, ou mesmo que nunca tenham visto, saindo de um teatro, quando ao menos ninguém se lembra de tê-la visto entrar.
Caso esteja se perguntando como não podem me ver, se quando o teatro lota há quem compartilhe comigo o camarote ou mesmo do salão lá de baixo seja possível perceber-me, digo que esses que me veem e memorizam minhas feições são os mesmo que se tornam importantes e continuam a fazer visitas. Aquele que notam minha feição, uma vez ou outra, esquecem-na facilmente, sua seletiva memória não guarda informações suficientes para um posterior reconhecimento, já que aqui é necessário mais que uma memória visual – ou fotográfica- para reconhecer um velho rosto.
Mas sim, minhas mais recentes visitas têm vindo numa frequência estranhamente surpreendente. Passei um tempo, para ser eufêmica, vivendo a explorar, no escuro da acomodação visual, cada detalhe das paredes, instrumentos deixados, corredores, caixas de som, que já tive medo da possibilidade de um ‘estranho’ permanecer tanto, talvez pela certeza de uma dependência, talvez pelo medo de uma perda.
Sendo mais direta, se dessa vez também não ocorrer uma cascata de ideias que adie ainda mais a apresentação de minhas ilustres visitas, teria muito do que falar delas aqui, teria muito a compartilhar com você, que vem visitar-me também, sobre a passagem dessas, sobre as peças as quais discutimos, as desbravações no escuro, as quedas e tropeços, mas, esteja certo de que se eu arriscasse contar todas essas horas aqui, nesse parágrafo, estaria cometendo um  crime por assassinar momentos guardados em gavetas que agora não tenho acesso.
As primeiras visitas foram de reconhecimento e outrora, elas também já fizeram parte do salão que não nota minha presença. Não subiram direto ao meu camarote e começaram a fazer visitas noturnas, até por que caso tivessem tido tal teimosia, provavelmente suas visitas teriam cessado, não é possível invadir de forma tão brusca e irresponsável um local quase que sagrado.
De lá do salão, subiram aos camarotes cada vez mais próximos do meu até que pudesse reconhecê-las mais de perto, até que quando cá, pudéssemos trocar palavras, críticas sobre a peça, extrapolá-la, enfim. Talvez tenham sido mesmo as primeiras visitas a propor-me sair do teatro, mesmo que não me convencendo a primeira instância. Importantes mesmo assim, queriam mostrar-me as ruas e o aroma do café recém- passado saindo da padaria, do pão de queijo recém- assado ou mesmo da torta de morango exposta no balcão da delicatessen.
Sim, encantei-me com todos os aromas e gostos que poderia conhecer, mas, permaneci sobre a guarda dessa que me visitava. Deixava que ela contasse-me sobre tudo que já havia provado acreditando fielmente em suas palavras, acreditando como se já tivesse vivido, com a mesma veracidade que teria, caso a protagonista fosse eu.
Sim, você pergunta como posso ter incorporado tanto as experiências dela, como não tinha curiosidade para sair e sentir eu mesma a torta no balcão, e não só, curiosidade de prova-la. Mas havia, tanto havia que, como uma criança diante de uma caixa de chocolates lacrada, meus olhos brilhavam pela possiblidade de poder estar lá, mas havia o lacre, e esse não seria aberto só pelo fato de querer comer os chocolates.
Tinha que ter a ferramenta certa, a força certa, eu tentei rompê-lo de qualquer jeito, tentei quebrar a porta do teatro mas quando percebia-a intacta, desesperava-me, já que por alguns segundos o que não era vontade de sair de vez, transformava-se numa necessidade monstruosa de sair dali, de provar xícaras e xícaras de café, de embebedar-me com todo chocolate que pudesse, de provar a torta de morango tão prometida. Como um surto psicótico que quebrava meus ossos pela força que eu fazia contra aquela porta, pelo medo que me assolava, pelo desespero de não mais sair dali, pela pressa... Por tudo que era prometido, por tudo que eu imaginava conhecer... Até que o eco, de uma soco meu contra a porta, naquela noite, soou tão alto que meus movimentos cessaram, meus músculos fadigados não mais se moviam, até que diante da inutilidade de minha insistência restaram apenas lágrimas, apenas o clichê tão odiado: Tudo tem seu tempo.
Essa noite, vale ressaltar, não havia alguém ali comigo. Não houve testemunho para meu momento de insanidade. Momento que eu só dimensionaria depois, que só depois conseguiria compreender.
Amanhece e eu devo voltar a meu camarote antes que as portas se abram, antes que os artistas venham ensaiar ou mesmo alguém apareça para limpar o salão.
                                                                                                                                    17/10/11

Um novo caminho, não tão esperado assim.

A ideia não terminou e não há como ter fim.
Ainda desejo a torta no forno.
Só não sei quando poderei chegar, há muito que se fazer no caminho, outros trilhos foram escolhidos e esses eu não conheço, não foram planejados.
O cobrador garante-me que chegarei a meu destino, mas não entendo a mudança de planos, ele insiste ser necessário, insiste que será melhor.
Pergunto pelos outros passageiros, alguns desceram desde minha chegada ao trem. Pergunto o porquê do caminho deles não ter sido alterado, o cobrador apenas responde:
- Não atrele seu destino ao dos outros, você não sabe quando eles entraram no trem. Estou aqui a tempo suficiente para garantir que não há porque tantos temores. Os caminhos nunca são tortos, os túneis sempre tem fim... Teu imóvel estará lá.
Minha cabeça pesa com seu discurso, penso como ele sabe do imóvel.
Conforto-me com o aroma das rosas na janela.
Não sei quanto tempo ainda levará a viagem, talvez não deva olhar tanto para o relógio.
Continuo a ter pressa, contudo.
Adormeço.
                                                                                                                     14/10/11