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Mostrando postagens de 2012

Pra cura, a pele.

ou: meu caro amor platônico
Estou curada, meu caro estou curada de todos como você,
não sei qual foi o certo que encontrei entre os remédios,
talvez o mesmo tédio que te fez aparecer.
E sem ti estou vivendo, sem fantasmas ou vícios,
equinócios e solstícios sem teu rosto desejar;
o real me consome e tu que não tens nome não me vem mais a faltar.
Só porque estou curada,
amor, estou curada de todos como você.
E se lágrimas caírem, meu rosto sucumbirem
por carne e osso serão,
por amor ou ódio,
por um nome, rosto, feição.
Tato, pele e dor,
calor do corpo real;
sem imagem, imaginação,
apenas a solução: esse necessário final.
Se algum bem um dia teu vício me fez, agradeço e me despeço
porque estou curada, platônico estou curada, de todos como você.

Desbagunçada desordem.

Há roupas penduradas em todos os lados exalando teu perfume pela casa.  A camisa que não serve mais, esquecida depois da otimização do espaço do guarda roupas, rasgada próximo ao joelho que ficou por ser consertada, mas logo foi substituída por uma mais nova, mais moderna, me fez lembrar da falta de linha na máquina de costura. Há linha branca mas não serve,  a bermuda é preta e ficaria muito óbvio que foi remendada, portanto ela permanecerá esquecida até a linha ser comprada.
Há roupas penduradas que me lembram que não preciso organizar o quarto. Esqueceria fácil onde cada peça foi guardada, prefiro assim: tudo ao alcance dos olhos, das mãos, palpáveis peças que me trazem teu perfume, que me fazem enxergar teus olhos, tocar teu sorriso; peças marcadas por tuas mãos, moldes traçados a partir de teu corpo, desenhando tua presença em todo o imóvel, embebedando minha mente com as lembranças não mais somente tuas.


24/11/2012

Ma-mais 5 min...

Tranquila noite que se molda por entre lápis e pincéis.
Foram semanas de sorrisos escondidos e alguns escandalizados, mas sem muito a se comemorar, de fato. Não é lá pessimismo, mas uma realidade prática demais, na qual a beleza teima em se esconder, em não ficar visível aos olhos dos que a deseja todos os dias. Não são péssimos dias, mas também não são os mais radiantes.
Fica o desejo escondido de noites cegas e beijos mudos, de aconchego, cafuné e preguiça.

- Meu bem, o vento está  forte demais, fecha um pouco a janela?
- Quer mesmo que eu levante? Tão aconchegante aqui... Fecha ali?
Ambos permaneceram ali, parados, deitados sem um movimento que insinuasse um passo. A cama já possuia seus contornos e tão confortáveis como estavam, era impensável levantar. Eram 2h da manhã quando o vento começara a soprar forte e a persiana balançava intensamente, mas não o suficiente para encorajá-los a levantarem-se. Persiana esquecida abaixada já que o vento tinha cessado aquela semana e não poderi…

Tu

Quem és tu quer lê esse texto agora?
Estás certo que não poderias ser outro caso a teu lado outro ser se portasse?
Tu és personagem de teu convívio e se outros formassem tua família, outros gostos seriam experimentados e tua percepção sobre a vida mudaria o foco.
Quem és tu que dança ao vento e se distrai com uma tulipa que desabrocha? Sabes que poderia nem conhecê-la caso houvesse nascido em outro país? Em potencial tu gostarias de tulipas mas jamais saberias da admiração que hoje tens.
Conhece-te pelos que te cercam, e se outros fossem... ah jamais poderás responder, afinal não trocaria-os por um reino, não trocaria por ouro aqueles que te fazem gostar de tulipas.
Se gostas de torta de morango e teus conviventes saboreiam-na também, tu tendes a saciar a sede ainda mais frequentemente, quando, se tais não gostassem, tua vontade poderia ser sucumbida como um raio que cai sobre a casa perdida no deserto e a destrói para nunca mais voltar.
Se a ti é permitido viver segundo teus pensamen…

Codificado segredo.

Rosa dos ventos quebrada

Como quem não sabe seguir o próprio risco, quem muda de direção depois de desenhar uma placa, como quem pinta um sol de azul (querendo transformá-lo em nuvem depois de definir o traçado), fazia de seu poente, o leste.
 No momento cegava-se e deixava-se levar por uma direção falsa e depois, apenas depois se dava conta do que havia feito (do que não havia deixado acontecer).
Sua falta de motivos, seus tortos parâmetros faziam-na se perder por entre o certo e o errado, as definições retas demais a aprisionavam numa redoma desconfortável da qual ela não sabia como sair (quando pensava em sair). Havia não que soava como sim, havia sim que deveria ser não e deixava de haver o que deveria ter sido, vivido para só depois concluir a falta de importância que teria (ou mesmo viver incondicionalmente o bem que nem a mente seria capaz de supor).
Mas sempre desviando das placas, só assim sentia-se segura, só assim se esquivava do que desenhava.
Sempre se convencendo que essa seria a melhor escolha,…

Ainda inocente amanhã.

Dizem-me que pareço poeta
por uma hora de nostalgia que me vem
afinal, é quase madrugada
do dia ainda inocente que nascerá, meu bem;

que a inocência traz inspiração
e quando mordida deixa marcas
se quisermos amadurecer teremos que saber lidar
com as dores, amores e farpas.

Não está doente meu coração
quieto e pequeno ele se molda
o mais perto que tem chegado do sossego
do abraço, do beijo, do aconchego
do conforto do travesseiro meu

onde por lágrimas me perco e a distância encontro
tão certa de desalento e desconforto
ela me vem lembrar que o tempo presente
trouxe-me embrulhado em laços de fita
um sorriso guardado na ultima gaveta
da qual eu havia perdido a chave, fazia tempo.

Entre degraus.

Não há luz, passos ou olhares;
Onde não há sustos, barulhos, câmeras, vigias...
apenas a noite entrando pelo basculante translúcido,
apenas os degraus fazendo espiral no concreto, descendo até a G2.

Lugar para dois.

Ar impuro de satisfação, de embriaguez, de tranquilidade;
silêncio rompido por estalos sem propósito, por consequência de algo maior.
Lugar de fuga: permitida e procurada;
do errado que por si só é certo;
sem permissões, permitido sem decreto.
Não há quem faça as regras, sem regras a serem ditas.
Sem infrações, bom senso, preocupações, tempo.
Bom tempo pra pensar no que se quer, no que se deve, no que se faz;
no que resta, no que falta, no que foi.
No que será e no passado ficará;
No que não foi, não se precisa pensar.
Sem penumbra, sem meios ou metades;
apenas a sombra, duas se moldando em uma só.
De pé ou de chão, sem apoio, sem canseira.
Sentados ou não.
Dois seres, dois corpos e um pouco mais além
sem romper o mais.
Nada demais,  de mais tempo, mais de dois.
Apenas um.

Prazer comportado.

Queria escrever algo que me inspirasse algo maior e o desejo fosse crescendo e por minhas mãos tomando forma até que pudesse ler e duvidar que meus punhos seguraram a pena que criou tal cena. Uma cena, sim, com detalhes e cores, sensações e amores, sabores, odores tudo que há de necessário para sentir, “sinestesiar” até o fim, até que não haja fim, para não se desejar que acabe, para desejar o amanhã, a eternidade da lua, que a manhã tarde e o Sol tenha preguiça de nascer, para que o amanhã seja tarde, seja longe, seja depois; porque a noite, ela sim será capaz de contar o que tenho a dizer, para que se possa, se queira apenas desejar.

O corpo é necessário, mas seja só de corpo e tu não serás satisfeito.

Já foram cachos, camadas e cascatas.
Já foram cama, lamparina e varanda.
E hoje são apenas tudo de uma só vez,
todo luxo e prazer que emana
de seus corpos não despidos em loucura;
de seus olhos nus a procura
de algo maior que pudessem encontrar,
de algo novo que os levasse a desejar
qu…

Desista.

Não acredito no seu ceticismo. Lúcida de menos, sou mais o que sonho. Não me venha com essa de (des)significar, tudo está certo, exatamente no lugar que nunca esteve. Se não pode ver ou sentir, sinto muito. Sou crente demais para o que você descarta.
Olhar do ângulo errado faz do certo torto.
Seu ângulo é obtuso demais e agudo de menos. Não seja tão reto. Tão cético. Por não saber explicar, diz-me que não é; por não saber explicar, digo-lhe tudo que pode ser. Porque não será agora, mas num dia que faça sentido. Não o mate que eu não deixarei e numa gaveta estarás a salvo de seus punhos. Não o tire assim de mim que você não conseguirá. Quanto tempo levar, quanto dele precisar, mas ficarás comigo, estarás comigo mesmo sem saber,
tu.
Quanto a você...

Já sabe o que fazer.


Um lugar de linhas tracejadas, és tu.

Imóvel, daqui não sairás, permanecerás (co) migo, (co) nosco.
I móvel em todas as mentes que tu estás presente, pra todo lugar que me (nos) carrega.
Compacto, pequena redoma de termos e sensações plenas invadindo nosso ser, concretizando-se à cada vez que a campainha toca.
Com pacto de amor, beijos e sabedoria dos tolos (que metem os pés pelas mãos antes de aprender que  pôr o dedo na tomada leva-os ao choque).
És tu, com pacto, és tu móvel e Imóvel Compacto sem espaços, sem silêncio, sem frustrações.
És onde encontro os dias perdidos, as noites de lágrimas secas, os sorrisos estampados, as tortas não mais nuas, as palavras mudas, os beijos cegos, os pingos de tinta nunca vistos.
És meu travesseiro consolador com todas tuas gavetas, lamparinas e parapeitos.
Rosas, tortas e camadas.
Brancos, tortos dias sem graça: Tu faz deles melhores, dias de nuvens doces - quase algodão - desmanchando-se em chuva.
És onde estou, és quem tu és por mim e por nós que quisermos.


És COMPACTOIMÓVEL só por …

Birra e pressa: Biscoitos, então!

- Um sorvete - Não, senão você não almoça. - Mas ainda falta pro meio dia e a gente tem que aproveitar cada minuto da vida. - Então aproveite brincando, pode aproveitar sem sorvete até o almoço. - Mas a gente tem que aproveitar da melhor forma que puder e a melhor forma agora é com sorvete. - E se não tivesse sorvete, como seria a melhor forma? - Biscoitos de chocolate! - Só o que não pode? - Você não disse tudo que não pode, só disse que o sorvete não pode. Biscoitos então! - Mas filho, se você comer biscoitos também não vai almoçar, mas poderá comer depois do almoço e tomar sorvete à tarde. É só esperar um pouquinho. - Eu não devo esperar, a espera cansa. - Você vai ver, à tarde o sorvete estará ainda mais gostoso, e você poderá saboreá-lo mais e mais. - Você quer me convencer disso, mas eu ainda acho que é perda de tempo.
29/01/2012

Lareira, convite e conversa.

Sobre tortas tenho a dizer,
sobre morangos e camadas
coberturas  tenho a fazer
e histórias das mais bem contadas.

Visite-me num dia de chuva
que em frente a lareira conversaremos
sobre paraquedas e palavras mudas
nas que mudaram vidas, focaremos.

Poderás contar para mim
o teu insano devaneio
do ócio à ouverdose, em fim
daquele inverno, sem receio.

Tomaremos chá, café, sentaremos ao chão
nada importará além da rima do refrão
do verso, da canção, da poesia
do sol, lá no alto, ao meio dia.

À noite seremos os mesmos,
haverá noite enquanto quisermos
aqui o relógio vive infermo
o atrasaremos enquanto pudermos.

À nós foi investido um poder
de guiar o que há de importante
então só precisaremos ser
amigos, compadres (ou mesmo amantes).

Sobre o tempo já foi escrito
sobre baterias e poder
sobre cama e solstício
amor, paixão, amanhecer.

Noites foram contadas
cobertores e janelas
sobre flores mal amadas
preciosas como esferas
de ouro, rubi, diamante
e o desejo do ser amante
continua guardado, à …

Paris, um barco e uma colher de pau.

Na terra da Torre Nas águas um barco Nas mãos uma colher. Sem destino, sem chegada, sem partida. Apenas ali. No barco, eu. Na margem, alguém para o qual eu mostrava saber remar. Remar com uma colher. Na terra da Torre
Uma canoa podia ser. Lugar para um, um remador. No meio da cidade, perto da lá. Uma lagoa, sem proa, sem chão. Sem cidade, sem cidadão. Apenas um, apenas eu. Apenas o barco, a lagoa e a colher. Descanso.
Depois do oceano, onde tudo é mais cedo. Onde o dia nasce logo. Onde a noite é paixão. Onde à noite foi um sonho. Que já de dia, acordei.
Tudo na Terra da Torre.

Sobre tinta e paixão. Sobre pincéis e saudade

Queima o céu da boca E da boca faz-se o céu Como pimenta malagueta Desenhada por mãos de pincel
Pode também escorrer Pelo rosto derramar Desmanchando o traçado E o verniz agora embaçado Se desfaz, mas engana.
Engana o desavisado Que enxerga cegamente E se convence sem cuidado Que o coração do desesperado Está em festa, está contente.
Ele deveria saber As lentes utilizar Para assim perceber Que às vezes a palavra faltar Não significa dizer Que não se tem o que falar
Mas se a tela se desmancha A esperança se mantém Da sala se alcança O sabor que provém Do forno, da lembrança Da saudade de um alguém
A dupla cobertura Que virá a vestir A torta não mais nua Desde a porta que se abriu Trará consigo a saudade De uma comemoração qualquer Que pode ser da idade Com sabor de liberdade Da palavra que couber.
E novamente torna-se doce Volta a apimentar A relação com as palavras Que traduzem sem considerar Pudores ou amarras (algemas da alma) Que só fazem dilacerar: Pincéis, quadros e mãos Prontos …
"dá pra escrever
o papel aceita
toda qualquer coisa"

~ Pouca Vogal

Não durou o equinócio.

Ouço estalos e doem os dedos.
A temporada foi curta, como a fração de um dia e eu achei que duraria todo o outono, ao menos.
Nem claras, nem escuras, apenas desfeitas.

(Des)feitas

Transcendendo os mundos.

305, depois de passar pelo 303, depois de atravessar o corredor e se deparar com uma pequena porta, ela pôde ouvi-lo balbuciar.
Ele esteve ali, tinha certeza disso, ou talvez, ela estivera lá.

E de certeza pôde narrar quando ele chegara para o almoço.
Antes mesmo de deixá-lo entrar, antes mesmo que ele pudesse pronunciar algo.
- Sabes o que senti ao saber que tu chegara de viagem?
Ele tentou dizer algo, expressou apenas, pois fora interrompido pela cascata das palavras dela:
- Às  12:09h da tarde, senti teus dentes em meus lábios: Superior, inferior.
Desejei sentir até amanhã, até o fim do mês, até novamente te ver.
Desejei sempre sentir.
Abri os olhos, não mais te vi.
Você não estava aqui, não esteve aqui.
Fechei os olhos, você não voltou.
Teus dentes em meus lábios, às 8:00h da manhã.

Hipnotizado como se ela portasse um relógio de ouro.
Mais doce que a realidade não há, ela pode ver.
Ele estava ali.
Ela pode sentir:


Dentes em seus lábios.

Sem ruídos, sem roídos.

Não mais ouço o estalar dos dentes esfomeados a dilacerarem as unhas por fazer;
não vejo mais unhas por fazer.
Por oras escuras, às vezes claras (quase nunca claras).
Os escuros deixam resquícios por trás delas e o claro não fica de fato claro, permanecem, portanto, escuras.
Roxas, vermelhas, pretas-azuladas.
Miragem, Gabriela, hip hop.
Humor ou quem sabe tempo.
Passa-tempo sem tempo pra perder.
Tempo que falta pra pintar telas, pra escrever cores.
Nunca perfeitas. De tempos pra cá, sempre feitas.

Destino traçado e alguns balões de festa.

Caso pudesse, abordaria todos os pixels nessas linhas, mas não caberiam no tempo que tenho, meu relógio reclamaria e sua bateria acabaria antes que eu chegasse na metade; minha memória me trairia e não seria capaz de cumprir tal promessa, daí prefiro dizer: De um pouco falarei, mas não considere menos importante o que ficar omitido, ou mesmo não apareça nas entrelinhas, já que muito ficará para contar numa próxima parada, para pintar numa próxima tela.  Telas, acho que posso começar assim. As cores já foram de um todo: De pastéis à vibrantes, mas de fato predominantes nos tons de azul. Desde sempre, desde tuas primeiras aquarelas, de teus primeiros passos (não voltarei tanto assim, afinal, não posso me estender).   Bom, tua presença aqui no imóvel é fato, mas venho a registrá-la pela primeira vez.  Lembro de cartas, hoje estariam amareladas, que te escrevi falando de brigas e o apesar delas, como lembro de tu que dizias que eu sempre escrevia sobre.  E se de fato escrevia, era só pra…

Outros degraus, um corrimão.

O conhecimento traz o gosto. O gosto, o perfeccionismo e dele  vem a dedicação, ou será o contrário? Especificamente, o viaduto não será alterado pela ordem dos tratores (poderia ser o produto e seus fatores e as cores, mais uma vez, não mudariam). Nesse caminho a gente perde, mas aprende que decisões são excludentes e as prioridades devem compor, senão os degraus, o corrimão da escada.  Bom que seja o corrimão, daí a gente se apoia e não caí. Daí a gente se segura e pode até dançar uma valsa, um forró mais descomprometido ou mesmo um tango com uma rosa na boca, se o caso for de sedução. Se o problema do futuro é a gente não saber quando as prioridades vão mudar,  o presente nos intimida à escolher mesmo sem saber se de fato iremos acordar, se os ponteiros vão avançar, se a gente vai gostar de quem a gente já gostou, se a Terra, enfim, continuará girando. Mas não importa e nunca importou. O futuro está onde nunca esteve, já que ainda não passou, de pretérito nada tem, conjugado não p…

...queijos e goiabadas.

Aconchegar: O ato de se aproximar com um ar inocente que faz todo o mundo desaparecer. Perto. Mais perto. Perto até tocar.

Contagem regressiva em busca da tela ainda não tecida.

Cada dia preciso de um baú maior para o que tenho a dizer.
Chegará o dia que precisarei de um baú grade o suficiente para todos os baús.
E de baú em baú precisarei dedois cômodos, quem sabe três.
De três em três um um pavimento.
De dois não passará e terei um teto.
E terei um imóvel.
um, dois, três... o que virá depois?
três, dois, um.
Uma necessidade.

Sentido por sentido: Finalidade.

É como manter-se calado. Tem a mesma utilidade de falar com as paredes num quarto de portas fechadas. É como estar no calabouço de olhos abertos ou no cinema de óculos escuros. Como escrever para um cego ou balbuciar para um surdo. Desejar comentários de um mudo ou esperar carícias de um maníaco.
   Mas mesmo assim a gente continua, a gente escreve como se alguém fosse ler, não alguém, mas o alguém. A gente escreve e se sente dizendo, se sente conversando. A gente finge que disse e depois dar-se conta do fantástico momento que passou.
   Nesse sentido é inútil, mas não em todos os sentidos.
   Transpor os sentimentos para o papel é como provar de uma fruta desconhecida: Ela está ali, diante dos olhos, seu sabor é inalcançável até que se prova. Escrever é provar, provar da fruta já existente (sentimentos e afins) e assim conhecê-la, e assim poder falar sobre, entender, gostar ou não.
   Mas a gente nunca quer só conhecer. A gente quer manipular, mesmo fantasticamente, o que se escr…

Extrapolando

São dois minutos antes do exigido.
São poucas linhas e muitas ideias não claras.
É pouco tempo para quem tem muito a dizer; é muito tempo para quem não quer ouvir.
Para alguém com uma pedra de gelo na mãos, qualquer segundo é eterno; como um intenso beijo que poderia durar a noite inteira (Inverso).
Foram dois minutos.
Agora três.

Branco nº 2.

Como não podia deixar de fazer jus ao dia, andei pela cozinha, pelo quarto... Mas foi mesmo na varanda, no suporte da lamparina que enconterei:
“- Roube-me um beijo. (...) Ele se aproxima, olha fixamente, pensa no pescoço, lembra-se da advertência, decide pelos ombros, chega mais perto, deixa sua respiração tocá-la, torna olhá-la, sua respiração cada vez mais próxima, ele pode sentir o hálito dela, ela pode ouvir os batimentos dele, ela fecha os olhos, um milhão de coisas pela cabeça dele, suas mãos antes nos ombros dela agora sobem para nuca, ele fecha os olhos-ainda pode vê-la- a ansiedade a toma- Ele conseguirá?- Ele treme, ele abre os olhos, ele recua. Ela não sente mais a respiração dele. Ela não sente mais as mãos dele em sua nuca. Ela abre os olhos. Ela o avista. Ela não entende. O Silêncio também não palpita. Ele pega o guardanapo na mesa e começa a mexer, amassá-lo, talvez. Ela se refaz e admite o fracasso de seu aluno. Ele estende as mãos: Uma rosa e um papel escrito. Ela r…

Levante exatamente às três.

Tum... Tum... Tum... na catedral. Trim...Trim...Trim... no despertador da cabeceira. Cucô Cucô Cucô    no brechó do outro lado da rua. São 3 horas. É hora de acordar. Hora de despertar e levantar pro dia que vai nascer.
O sol ainda não apareceu, a Lua implacável, alguém ainda dorme depois da porta ao lado.
Não são mais 3h.
Hora de dormir. Já não é perfeito. Já foi feito. Per dido tempo.

Poderia acontecer. Eles podiam se ouvir.

- Boa noite. - Boa noite. (poderia ser um beijo) - Então, conseguiram resolver a falta de instrutores? Naquele dia já havia alunos reclamando. -Teve uma seleção hoje e conseguimos dois instrutores já com alguma experiência. Vão passar por duas semanas de testes e quando se interarem das normas, poderão saltar com os alunos. - Ainda bem, você já estava a ponto de um ataque, organizando tudo por lá. - Verdade. Mas acabou a agonia, ainda bem! Eles curtiram aquele silêncio, raro silêncio, na noite que começara o inverno, noite de folhas congeladas e do vento frio que entrava pela janela. Foi momentâneo, mas pode-se registrar, no vento, como um desenho, a marca de cada sorriso estampado, um em cada face (poderiam estar em uma única boca). - Sim, me deixa dizer. Hoje quando voltava da empresa, ainda no sinal fechado, avistei um casal que parecia discutir, ele com um ramalhete e ela não aceitando. Ele parecia pedir desculpas e ela chorava, mas sem ceder aos braços dele. Então ela começou a…

Ponteiros: Mais uma sobre o tempo.

Do tempo eu vim, tu vieste e pro futuro nós fomos. Do futuro que ficou no imperfeito, sobraram palavras incompletas e algo por conjugar num outro futuro que ainda não passou. Agora presente, indissociável passado e entrelaçado futuro, estamos aqui. Estou e tu estás de fronte a caminhos novos sem marcas no chão. De costas para as folhas caídas do outono que se foi. E se o vento da recente primavera traz novas folhas até ti, tu deves cuidar delas com zelo, se de fato não machucarem tuas mãos. Nunca soube quais as flores mais bonitas da primavera. Deveria ter subido em mais árvores e explorado mais campos. Mas num futuro que era pretérito, ao mesmo tempo, ficou o desejo não concretizado e no presente não há a lembrança. Por não entender como as flores podiam crescer depois de meses de frio, não senti seus perfumes. Não pude, não poderia, em hora passada, acreditar que sentindo eu entenderia. Deveria acontecer o contrário: Entender e depois apreciar e como a ordem não foi respeitada, por…

Há um cravo no parapeito da janela.

As palavras voltam a meus punhos e descem por meus dedos, mas ainda não sei se tomarão forma. Não sei se pintarei com elas um texto ou apenas farei delas aquarela. Tenho muitas cores em mãos, ainda nos potes, e não sei ao certo qual usar nesse momento. Temo que alguma delas caia sob meus braços encharcando-os de tal forma que eu não saiba controlar, por isso tenho calma (tento ter calma).
Sei que o subjetivismo de minha vida causou-me problemas.
Sei que ao passo que eu não me entendia, não fazia mais alguém me entender. Fiz promessas para livrar-me dele, inventei que havia me libertado, quis me convencer de tal, de tola me fiz, de tola deixei-me fazer. Esse subjetivismo que me fazia escrever (ou mesmo falar) nas entrelinhas, que me fez me perder mais ainda quando eu já estava perdida por entre meus sentimentos, pode ter uma causa quase comprovada, pra não dizer certamente comprovada: Medo.
Esse ator que participou de vários capítulos, lá meses, anos de minha história, e que ainda tei…

Começando o recomeço.

Medo do novo. De novo, medo. Novo caminho. À caminho do novo.
De novo (temporário ou contínuo).
Nada é tão imutável que o novo não mude.

Fita, nó e laço: Nem sempre dá pra separar.

É perfeito o imperfeito que não precisa da perfeição para ser belo. É saciável a sede - que só se mata com abundante água - do beduíno em frente à miragem que se esvai, mas que por alguns segundos permaneceu e saciou toda vontade fisiológica e psicológica do viajante que nunca se perderá por entre as dunas.   A miragem é tudo que ele sonhou durante noites, é tudo que ele desejou por dias de sol escaldante, é tudo que ele poderia querer. Não é só água, em significado nunca seria nunca será. É desejo, é sonho, é um sinal, como se a areia não fosse mais tudo que ele tem, a tal luz no fim do túnel, segundos de sonho concreto. E, se a realidade vem, ele viveu aquele momento como único que jamais será roubado, jamais esquecido, os segundos mais doces de sua caminhada.
  Eterno enquanto dure, durante toda vida do imortal que falece quando o infinito acaba. Ele, porém, continua vivo, não mais imortal, apenas vivo. Um vivo que vaga, que sobrevive, que bebe que come dos pães menos doces por …

É preciso precisar do imprescindível!

... porque, às vezes, a camisa faltando um botão é a melhor de todo o armário.

Mais uma de saudade

Escrevo as lágrimas que não caem de meus olhos imersos em saudade. Futura e sentida saudade que invadirá meu peito num futuro certo, nada distante (a uns quilômetros daqui, de lá). Lágrimas já escritas, mas que teimam em descer por meus dedos e forçam-me a novas palavras.

Recortando.

"...e temo ainda mais por um dia em que não sejam tão viciantes como hoje são. Desejo permanecer assim: Embriagada, como quem bebe sempre da mesma fonte e prefere morrer de overdose à uma ressaca que limita a memória."
Porque, às vezes, um pedaço de torta na geladeira vale mais do que uma inteira no forno.

À procura de uma resposta.

Acho que escrevo porque me falta algo e procuro aqui. Talvez as palavras não tenham um espaço seu ainda e, por enquanto, estejam ocupando um determinado vazio. Talvez o lugar delas ainda esteja sendo construído, talvez isso demande mais tempo do que eu havia planejado. Talvez a obra tenha atrasado devido às chuvas dos últimos dias (nem sei se foram dias). Sei que não posso cobrar muito dos construtores, afinal, eles não têm lá autonomia, tudo depende de engrenagens, se uma não funciona como deve, toda a maquinaria fica comprometida. Mas, desejo imensamente que fique pronto logo, não deve-se usar o que for para preencher um espaço que pertence a outro (ou é seu, ou não deve existir). Espero que seja provisório, uma provisória situação. Não costumava sentir saudade. Punia-me por não sentir saudade. Hoje, ela me pune.

Direito de posse.

Agora são Longos-curtos. E assim se fazem: Como degraus, subindo até a franja; em camadas que descem como ondas por minhas costas, fazendo cócegas, quase beijos. No espelho, tenho variadas versões agora: Posso deleitar-me com seu pouco comprimento esse, que por falta de coragem, há tempos não aprecio. Posso voltar à visão de suas longas mechas ainda presentes, depois de olhar de outro ângulo. Há tempos não os modificava. Há tempos suas pontas, como secas folhas, tiravam seu acabamento, não permitiam o toque final, davam trabalho e não me satisfaziam. A franja já não era franja, mas sim algo que se perdeu no tempo tornando-se dúvida, como aquele que perde o rumo e, por não saber mais aonde vai, aceita qualquer definição, qualquer uma que o faça sentir ainda vivo.  Definiram-na como “franjão” e ela aceitou, pois, já perdida, se satisfazia com alguma caracterização ainda possível. Sem curvas já estavam ficando. Sem formato. Sem definição. Não foi aparado, retocado, cuidado e assim o e…

Jamais uma fita cassete

Incrível é quando você tem a certeza e continua com a dúvida. Quando o passado bate a tua porta, ou à porta de conhecidos teus e pessoas ainda aparecem pra dizer que tu deverias pensar da mesma forma que antes e esse passado é apenas usado para isso. Usado, sim. Ele está lá e compete a ti olhá-lo da forma que mais te convier, o certo seria: Da melhor forma pra tua vida, mas nem sempre é o que acontece. “Se fosse para isso acontecer, teria sido assim há um ano, ou dois, talvez.” Mas as pessoas se esquecem de um fator determinante para o espaço-tempo: As verdades mudam. As prioridades mudam. A realidade muda. Se em teu ano acontecesse os mesmos eventos que aconteceram no que passou, tuas reações seriam diferentes e isso não faria de tu menos sincero (a) e sabes por quê? Porque tu não és o mesmo e como duas pessoas diferentes, as reações não podem ser as mesmas. Prioridades: Tua mente gira ao entorno delas: Se queres, derramará de lágrimas tuas à de outros; se não queres, permaneceras c…