Sim, porque não será extenso; não haverá lugar para vazios.
As palavras aqui ocuparão parte do espaço: algumas gavetas,
geladeira, a cima das mesas, parte do armário do banheiro...
Mas não todo o imóvel.
A outra parte será destinada a quem desejar visitá-lo, tomar
por empréstimo alguns vocábulos moldá-los, ou mesmo senti-los.
Não será necessário bater a porta sempre que se desejar entrar,
se a causa for justa e as palavras respeitadas,os visitantes serão
sempre bem vindos.
Caso deseje deixar de lembrança alguns termos poucos ou muitos
não se preocupe com a disponibilidade de espaço,
o compactoimóvel só estará completo para aquele que não
gostar do aroma da torta de morango no forno, das rosas na
janela ou mesmo para quem se sinta grande demais
a ponto de não caber em seus cômodos.

Todos os demais,
sejam bem vindos.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Pra cura, a pele.

ou: meu caro amor platônico


Estou curada, meu caro estou curada de todos como você,
não sei qual foi o certo que encontrei entre os remédios,
talvez o mesmo tédio que te fez aparecer.
E sem ti estou vivendo, sem fantasmas ou vícios,
equinócios e solstícios sem teu rosto desejar;
o real me consome e tu que não tens nome não me vem mais a faltar.
Só porque estou curada,
amor, estou curada de todos como você.
E se lágrimas caírem, meu rosto sucumbirem
por carne e osso serão,
por amor ou ódio,
por um nome, rosto, feição.
Tato, pele e dor,
calor do corpo real;
sem imagem, imaginação,
apenas a solução: esse necessário final.
Se algum bem um dia teu vício me fez, agradeço e me despeço
porque estou curada, platônico estou curada, de todos como você.

sábado, 24 de novembro de 2012

Desbagunçada desordem.


Há roupas penduradas em todos os lados exalando teu perfume pela casa.  A camisa que não serve mais, esquecida depois da otimização do espaço do guarda roupas, rasgada próximo ao joelho que ficou por ser consertada, mas logo foi substituída por uma mais nova, mais moderna, me fez lembrar da falta de linha na máquina de costura. Há linha branca mas não serve,  a bermuda é preta e ficaria muito óbvio que foi remendada, portanto ela permanecerá esquecida até a linha ser comprada.
Há roupas penduradas que me lembram que não preciso organizar o quarto. Esqueceria fácil onde cada peça foi guardada, prefiro assim: tudo ao alcance dos olhos, das mãos, palpáveis peças que me trazem teu perfume, que me fazem enxergar teus olhos, tocar teu sorriso; peças marcadas por tuas mãos, moldes traçados a partir de teu corpo, desenhando tua presença em todo o imóvel, embebedando minha mente com as lembranças não mais somente tuas.


24/11/2012

sábado, 17 de novembro de 2012

Ma-mais 5 min...

Tranquila noite que se molda por entre lápis e pincéis.
Foram semanas de sorrisos escondidos e alguns escandalizados, mas sem muito a se comemorar, de fato. Não é lá pessimismo, mas uma realidade prática demais, na qual a beleza teima em se esconder, em não ficar visível aos olhos dos que a deseja todos os dias. Não são péssimos dias, mas também não são os mais radiantes.
Fica o desejo escondido de noites cegas e beijos mudos, de aconchego, cafuné e preguiça.

- Meu bem, o vento está  forte demais, fecha um pouco a janela?
- Quer mesmo que eu levante? Tão aconchegante aqui... Fecha ali?
Ambos permaneceram ali, parados, deitados sem um movimento que insinuasse um passo. A cama já possuia seus contornos e tão confortáveis como estavam, era impensável levantar. Eram 2h da manhã quando o vento começara a soprar forte e a persiana balançava intensamente, mas não o suficiente para encorajá-los a levantarem-se. Persiana esquecida abaixada já que o vento tinha cessado aquela semana e não poderiam imaginar que sopraria tão intensamente madrugada adentro.
- Amor, estou caída de sono, mal posso abrir os o-o-olhos. 
Entre bocejos, tenta convencê-lo quando é surpreendida por seus braços a entrelaçando, como quem diz decido que não sairá dali tão cedo.
- Golpe baixo.
Ela não sairia dali.
Ela de costas. O vento continuava soprando intensamente. Ele podia sentir o aroma dos cabelos dela, da sua pele enquanto se afundava ainda mais no colchão.
- Amor...
Vencida, ela tenta se levantar quando é impedida pelos braços dele, sobre os seus, não a deixando se mover.
 - Só mais um pouquinho...Você nem quer levantar.
...
2h 30min.
Ela ainda incomodada com o vento demasiado, conclui que ele já dormiu e mais uma vez tenta levantar-se
- Só mais um pouquinho...
Ouve ele balbuciar, antes mesmo de conseguir sentar na cama.
-Eu vou, volto num segundo.
-Mais um pouqui...
Ela vira-se. Ele ainda com o braço sobre o dela, sem tanta força mais. Ela continua a olhá-lo dormir, adormecer do seu lado... Como poderia levantar-se? Deixá-lo ali, se mesmo dormindo a desejava do seu lado, mesmo sem vê-la...
2h35'10''... 
15''... 
20''...
25'' enquanto ela olhava-o ali, afundado, confortável... 
Ela decide se remoldando entre os braços dele:
- Só mais um pouqui-quinho.

10h.


17.11.2012 ~ 1h31min AM

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Tu

Quem és tu quer lê esse texto agora?
Estás certo que não poderias ser outro caso a teu lado outro ser se portasse?
Tu és personagem de teu convívio e se outros formassem tua família, outros gostos seriam experimentados e tua percepção sobre a vida mudaria o foco.
Quem és tu que dança ao vento e se distrai com uma tulipa que desabrocha? Sabes que poderia nem conhecê-la caso houvesse nascido em outro país? Em potencial tu gostarias de tulipas mas jamais saberias da admiração que hoje tens.
Conhece-te pelos que te cercam, e se outros fossem... ah jamais poderás responder, afinal não trocaria-os por um reino, não trocaria por ouro aqueles que te fazem gostar de tulipas.
Se gostas de torta de morango e teus conviventes saboreiam-na também, tu tendes a saciar a sede ainda mais frequentemente, quando, se tais não gostassem, tua vontade poderia ser sucumbida como um raio que cai sobre a casa perdida no deserto e a destrói para nunca mais voltar.
Se a ti é permitido viver segundo teus pensamentos e crenças, tua fé e vontade, teu desejo e satisfação, é provável que os teus não te castiguem por tal, caso o fizessem, provavelmente tu evitares a torta de morango exalando perfume na janela da vizinha que a pôs pra esfriar.
Aqueles que tu escolhes como teus, definem quem tu és, sem mesmo que tu percebas, porque a liberdade que tu tens de ser quem deseja, passa por filtros e provocações que  tu só aprenderás a controlar com a experiência de conviver com os que te cercam.
Liberto tu és pra fazer o que tu queres; e o que tu queres é puramente o que te satisfaz a alma? Ou algum dos teus anda te influenciando a limitar-te numa redoma de parâmetros retos demais que te sufocam?
Quem,agora, deseja ser tu que leu esse texto?

Codificado segredo.



Tudo uma vez e de uma em uma, unicamente se faz.
Jamais duas.
Impensáveis três.
Repetir é proibido, voltar é atemporal.
   
   De sete em sete chaves guardei o que alguém um dia disse nunca existir.
   Guardei o tempo.
   Guardei a lembrança do que ainda, do que nunca, aconteceu.


08-15.05.2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Rosa dos ventos quebrada

Como quem não sabe seguir o próprio risco, quem muda de direção depois de desenhar uma placa, como quem pinta um sol de azul (querendo transformá-lo em nuvem depois de definir o traçado), fazia de seu poente, o leste.
 No momento cegava-se e deixava-se levar por uma direção falsa e depois, apenas depois se dava conta do que havia feito (do que não havia deixado acontecer).
Sua falta de motivos, seus tortos parâmetros faziam-na se perder por entre o certo e o errado, as definições retas demais a aprisionavam numa redoma desconfortável da qual ela não sabia como sair (quando pensava em sair). Havia não que soava como sim, havia sim que deveria ser não e deixava de haver o que deveria ter sido, vivido para só depois concluir a falta de importância que teria (ou mesmo viver incondicionalmente o bem que nem a mente seria capaz de supor).
Mas sempre desviando das placas, só assim sentia-se segura, só assim se esquivava do que desenhava.
Sempre se convencendo que essa seria a melhor escolha, criando parâmetros, se desligando dos fatos, esquecendo o mundo, (dês)priorizando que poderia ser feliz.
 Complicando o direto, fazendo curva das retas e retificando ciclos, (ir)radian(d)o a dúvida, andava sem saber por onde havia deixado o caminho de migalhas de pão, ou mesmo porque havia escolhido pão num caminho de tantos pombos, sentava-se à sombra de uma laranjeira e começava a ler o que havia de mais irreal e incerto que já havia sido escrito, se convencendo de metáforas, enlouquecendo seus interlocutores desconhecidos de suas leituras mirabolantes.
Por horas, os dias se repetiam.

15/09 (Anterior)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ainda inocente amanhã.

Dizem-me que pareço poeta
por uma hora de nostalgia que me vem
afinal, é quase madrugada
do dia ainda inocente que nascerá, meu bem;

que a inocência traz inspiração
e quando mordida deixa marcas
se quisermos amadurecer teremos que saber lidar
com as dores, amores e farpas.

Não está doente meu coração
quieto e pequeno ele se molda
o mais perto que tem chegado do sossego
do abraço, do beijo, do aconchego
do conforto do travesseiro meu

onde por lágrimas me perco e a distância encontro
tão certa de desalento e desconforto
ela me vem lembrar que o tempo presente
trouxe-me embrulhado em laços de fita
um sorriso guardado na ultima gaveta
da qual eu havia perdido a chave, fazia tempo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Entre degraus.


Não há luz, passos ou olhares;
Onde não há sustos, barulhos, câmeras, vigias...
apenas a noite entrando pelo basculante translúcido,
apenas os degraus fazendo espiral no concreto, descendo até a G2.

Lugar para dois.

Ar impuro de satisfação, de embriaguez, de tranquilidade;
silêncio rompido por estalos sem propósito, por consequência de algo maior.
Lugar de fuga: permitida e procurada;
do errado que por si só é certo;
sem permissões, permitido sem decreto.
Não há quem faça as regras, sem regras a serem ditas.
Sem infrações, bom senso, preocupações, tempo.
Bom tempo pra pensar no que se quer, no que se deve, no que se faz;
no que resta, no que falta, no que foi.
No que será e no passado ficará;
No que não foi, não se precisa pensar.
Sem penumbra, sem meios ou metades;
apenas a sombra, duas se moldando em uma só.
De pé ou de chão, sem apoio, sem canseira.
Sentados ou não.
Dois seres, dois corpos e um pouco mais além
sem romper o mais.
Nada demais,  de mais tempo, mais de dois.
Apenas um.
De pé, de mão, sentados.
Olhos sem ver; desnecessária luz ausente.
Rompendo, caindo, descendo até...
até não passar, não ultrapassar o chão.
Descendo em espiral até o saguão.
e lá encontrar-se-ão.
No térreo, no piso onde planejavam subir
se acomodar e a sós ficar no

 Décimo Quinto andar.

domingo, 22 de julho de 2012

Prazer comportado.

Queria escrever algo que me inspirasse algo maior e o desejo fosse crescendo e por minhas mãos tomando forma até que pudesse ler e duvidar que meus punhos seguraram a pena que criou tal cena. Uma cena, sim, com detalhes e cores, sensações e amores, sabores, odores tudo que há de necessário para sentir, sinestesiar até o fim, até que não haja fim, para não se desejar que acabe, para desejar o amanhã, a eternidade da lua, que a manhã tarde e o Sol tenha preguiça de nascer, para que o amanhã seja tarde, seja longe, seja depois; porque a noite, ela sim será capaz de contar o que tenho a dizer, para que se possa, se queira apenas desejar.

O corpo é necessário, mas seja só de corpo e tu não serás satisfeito.

Já foram cachos, camadas e cascatas.
Já foram cama, lamparina e varanda.
E hoje são apenas tudo de uma só vez,
todo luxo e prazer que emana
de seus corpos não despidos em loucura;
de seus olhos nus a procura
de algo maior que pudessem encontrar,
de algo novo que os levasse a desejar
que a noite permanecesse acesa
longe do dia, do sol e da manhã;
perto do chão, das cadeiras e mesas
quem sabe como recosto, um divã:
confortável e aconchegante
emanando o desejo de saber
o que se passa na cabeça do amante
quando o corpo ferve em prazer
e a alma congela ao perceber
os olhos que encaram os seus,
o medo, a dúvida e as mãos;
o rosto, a fúria e tensão
de quando o jogo está para acabar
o gosto que sabe-se que irá perdurar
até o último ato tocar
quando ao chão vai-se a resposta
e ao início daquela envolvente história,
(da vida ou da morte de alguém)
os dados irão te levar.


Posso acreditar que meus punhos seguraram tal pena,
fica para uma outra noite o desejo concretizar.

                                                                                                                                  17.07.2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Desista.


Não acredito no seu ceticismo.
Lúcida de menos, sou mais o que sonho.
Não me venha com essa de (des)significar, tudo está certo, exatamente no lugar que nunca esteve.
Se não pode ver ou sentir, sinto muito.
Sou crente demais para o que você descarta.

Olhar do ângulo errado faz do certo torto.

Seu ângulo é obtuso demais e agudo de menos. Não seja tão reto. Tão cético.
Por não saber explicar, diz-me que não é;
por não saber explicar, digo-lhe tudo que pode ser.
Porque não será agora, mas num dia que faça sentido.
Não o mate que eu não deixarei e numa gaveta estarás a salvo de seus punhos.
Não o tire assim de mim que você não conseguirá.
Quanto tempo levar, quanto dele precisar, mas ficarás comigo, estarás comigo mesmo sem saber,

tu.

Quanto a você...

Já sabe o que fazer.



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um lugar de linhas tracejadas, és tu.

Imóvel, daqui não sairás, permanecerás (co) migo, (co) nosco.
I móvel em todas as mentes que tu estás presente, pra todo lugar que me (nos) carrega.
Compacto, pequena redoma de termos e sensações plenas invadindo nosso ser, concretizando-se à cada vez que a campainha toca.
Com pacto de amor, beijos e sabedoria dos tolos (que metem os pés pelas mãos antes de aprender que  pôr o dedo na tomada leva-os ao choque).
És tu, com pacto, és tu móvel e Imóvel Compacto sem espaços, sem silêncio, sem frustrações.
És onde encontro os dias perdidos, as noites de lágrimas secas, os sorrisos estampados, as tortas não mais nuas, as palavras mudas, os beijos cegos, os pingos de tinta nunca vistos.
És meu travesseiro consolador com todas tuas gavetas, lamparinas e parapeitos.
Rosas, tortas e camadas.
Brancos, tortos dias sem graça: Tu faz deles melhores, dias de nuvens doces - quase algodão - desmanchando-se em chuva.
És onde estou, és quem tu és por mim e por nós que quisermos.


És COMPACTOIMÓVEL só por ser, só por existir.




27/06/2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Birra e pressa: Biscoitos, então!



- Um sorvete
- Não, senão você não almoça.
- Mas ainda falta pro meio dia e a gente tem que aproveitar cada minuto da vida.
- Então aproveite brincando, pode aproveitar sem sorvete até o almoço.
- Mas a gente tem que aproveitar da melhor forma que puder e a melhor forma agora é com sorvete.
- E se não tivesse sorvete, como seria a melhor forma?
- Biscoitos de chocolate!
- Só o que não pode?
- Você não disse tudo que não pode, só disse que o sorvete não pode. Biscoitos então!
- Mas filho, se você comer biscoitos também não vai almoçar, mas poderá comer depois do almoço e tomar sorvete à tarde. É só esperar um pouquinho.
- Eu não devo esperar, a espera cansa.
- Você vai ver, à tarde o sorvete estará ainda mais gostoso, e você poderá saboreá-lo mais e mais.
- Você quer me convencer disso, mas eu ainda acho que é perda de tempo.

29/01/2012

sábado, 2 de junho de 2012

Lareira, convite e conversa.



Sobre tortas tenho a dizer,
sobre morangos e camadas
coberturas  tenho a fazer
e histórias das mais bem contadas.

Visite-me num dia de chuva
que em frente a lareira conversaremos
sobre paraquedas e palavras mudas
nas que mudaram vidas, focaremos.

Poderás contar para mim
o teu insano devaneio
do ócio à ouverdose, em fim
daquele inverno, sem receio.

Tomaremos chá, café, sentaremos ao chão
nada importará além da rima do refrão
do verso, da canção, da poesia
do sol, lá no alto, ao meio dia.

À noite seremos os mesmos,
haverá noite enquanto quisermos
aqui o relógio vive infermo
o atrasaremos enquanto pudermos.

À nós foi investido um poder
de guiar o que há de importante
então só precisaremos ser
amigos, compadres (ou mesmo amantes).

Sobre o tempo já foi escrito
sobre baterias e poder
sobre cama e solstício
amor, paixão, amanhecer.

Noites foram contadas
cobertores e janelas
sobre flores mal amadas
preciosas como esferas
de ouro, rubi, diamante
e o desejo do ser amante
continua guardado, à espera

(tua).


Ainda desejo saber
se comigo tomarás café
canecas tenho a oferecer
aceitaria mesmo um "Até

algum dia, boa amiga
no qual nos reencontraremos
quem sabe numa noite mal dormida
enfim, à sós estaremos".

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Paris, um barco e uma colher de pau.



Na terra da Torre
Nas águas um barco
Nas mãos uma colher.
Sem destino, sem chegada, sem partida. Apenas ali.
No barco, eu.
Na margem, alguém para o qual eu mostrava saber remar.
Remar com uma colher.
Na terra da Torre

Uma canoa podia ser. Lugar para um, um remador.
No meio da cidade, perto da lá.
Uma lagoa, sem proa, sem chão.
Sem cidade, sem cidadão.
Apenas um, apenas eu.
Apenas o barco, a lagoa e a colher.
Descanso.

Depois do oceano, onde tudo é mais cedo.
Onde o dia nasce logo.
Onde a noite é paixão.
Onde à noite foi um sonho.
Que já de dia, acordei.

Tudo na Terra da Torre.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sobre tinta e paixão. Sobre pincéis e saudade



Queima o céu da boca
E da boca faz-se o céu
Como pimenta malagueta
Desenhada por mãos de pincel

Pode também escorrer
Pelo rosto derramar
Desmanchando o traçado
E o verniz agora embaçado
Se desfaz, mas engana.

Engana o desavisado
Que enxerga cegamente
E se convence sem cuidado
Que o coração do desesperado
Está em festa, está contente.

Ele deveria saber
As lentes utilizar
Para assim perceber
Que às vezes a palavra faltar
Não significa dizer
Que não se tem o que falar

Mas se a tela se desmancha
A esperança se mantém
Da sala se alcança
O sabor que provém
Do forno, da lembrança
Da saudade de um alguém

A dupla cobertura
Que virá a vestir
A torta não mais nua
Desde a porta que se abriu
Trará consigo a saudade
De uma comemoração qualquer
Que pode ser da idade
Com sabor de liberdade
Da palavra que couber.

E novamente torna-se doce
Volta a apimentar
A relação com as palavras
Que traduzem sem considerar
Pudores ou amarras (algemas da alma)
Que só fazem dilacerar:
Pincéis, quadros e mãos
Prontos a se expressar.

domingo, 20 de maio de 2012

"dá pra escrever
o papel aceita
toda qualquer coisa"

~ Pouca Vogal

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Não durou o equinócio.

Ouço estalos e doem os dedos.
A temporada foi curta, como a fração de um dia e eu achei que duraria todo o outono, ao menos.
Nem claras, nem escuras, apenas desfeitas.

(Des)feitas

Transcendendo os mundos.

305, depois de passar pelo 303, depois de atravessar o corredor e se deparar com uma pequena porta, ela pôde ouvi-lo balbuciar.
Ele esteve ali, tinha certeza disso, ou talvez, ela estivera lá.

E de certeza pôde narrar quando ele chegara para o almoço.
Antes mesmo de deixá-lo entrar, antes mesmo que ele pudesse pronunciar algo.
- Sabes o que senti ao saber que tu chegara de viagem?
Ele tentou dizer algo, expressou apenas, pois fora interrompido pela cascata das palavras dela:
- Às  12:09h da tarde, senti teus dentes em meus lábios: Superior, inferior.
Desejei sentir até amanhã, até o fim do mês, até novamente te ver.
Desejei sempre sentir.
Abri os olhos, não mais te vi.
Você não estava aqui, não esteve aqui.
Fechei os olhos, você não voltou.
Teus dentes em meus lábios, às 8:00h da manhã.

Hipnotizado como se ela portasse um relógio de ouro.
Mais doce que a realidade não há, ela pode ver.
Ele estava ali.
Ela pode sentir:


Dentes em seus lábios.

sábado, 28 de abril de 2012

Sem ruídos, sem roídos.


Não mais ouço o estalar dos dentes esfomeados a dilacerarem as unhas por fazer;
não vejo mais unhas por fazer.
Por oras escuras, às vezes claras (quase nunca claras).
Os escuros deixam resquícios por trás delas e o claro não fica de fato claro, permanecem, portanto, escuras.
Roxas, vermelhas, pretas-azuladas.
Miragem, Gabriela, hip hop.
Humor ou quem sabe tempo.
Passa-tempo sem tempo pra perder.
Tempo que falta pra pintar telas, pra escrever cores.
Nunca perfeitas. De tempos pra cá, sempre feitas.

sábado, 21 de abril de 2012

Destino traçado e alguns balões de festa.


Caso pudesse, abordaria todos os pixels nessas linhas, mas não caberiam no tempo que tenho, meu relógio reclamaria e sua bateria acabaria antes que eu chegasse na metade; minha memória me trairia e não seria capaz de cumprir tal promessa, daí prefiro dizer: De um pouco falarei, mas não considere menos importante o que ficar omitido, ou mesmo não apareça nas entrelinhas, já que muito ficará para contar numa próxima parada, para pintar numa próxima tela.
 Telas, acho que posso começar assim. As cores já foram de um todo: De pastéis à vibrantes, mas de fato predominantes nos tons de azul. Desde sempre, desde tuas primeiras aquarelas, de teus primeiros passos (não voltarei tanto assim, afinal, não posso me estender). 
 Bom, tua presença aqui no imóvel é fato, mas venho a registrá-la pela primeira vez.
 Lembro de cartas, hoje estariam amareladas, que te escrevi falando de brigas e o apesar delas, como lembro de tu que dizias que eu sempre escrevia sobre.
 E se de fato escrevia, era só pra registrar que independente do que fosse dito em épocas de furacões e o que eles destruíssem pela frente, a recomposição viria a cavalo (a jatinho, poderia ser mais adequado já que rápida mesmo era).
 Mas, indepentente dos tornados ou mesmo dos cavalos, sendo mais literal, eu digo: Tua autonomia sempre me causou admiração, e se tu viveste (e vives) na tranquilidade que as brisas sopram, é porque aprendeste que a paz que elas trazem significa mais do que a correria de quem não sabe o que passa a seu lado, devido a pressa de chegar, sabe Deus onde, já que no dia seguinte estará a correr mais uma vez sem alcançar de fato algum lugar ao Sol.
 Tenho veraz admiração pelo teu jeito, e o modo com usa de teus pincéis.
 Tua telas, teus dias, parecem-me pré-moldados: Como se tu soubesses exatamente o modo de agir diante de uma ou outra situação, desenrolada e sem nós (sem pontas soltas - como as que me sobram).
 De tuas paixões a amores, dos que passam aos que ficam, admiro como tu colocas cada um deles em seu merecido vagão, sem permitir que o passageiro de ultima hora frequente a primeira classe.
 Teu tempo é o presente. E de presente o faz literalmente. Se há tempo, há que se aproveitá-lo. Se há portas, há que se abrir, há que se  tocar o interfone, ao menos, mas, nunca deixar que elas se fechem. 
E, se te digo isso é mais uma vez por admiração. Coragem ou um jeito de viver, eu diria que Humberto Gessinger fez metafísica referência a ti ao cantar "sem passado, nem futuro, eu vivo um dia de cada vez" ainda, diferente do contexto dele, digo que a ti pertence o presente, pois sabes aproveitá-lo em essência, até a última gota, como quem não se importa com os degraus - mas caso exista um tobogã do lado, logicamente o preferirá.
 Sem querer os clichês (e mesmo não acreditando que são), ouso-me a determinar alguns máximos teus:

~ Se a vida pode ser divertida, que seja ao máximo!
~ Se podes trabalhar menos e viver mais, que seja feito!
~ Se as férias puderem ser estendidas, nunca exite (mas não fique em casa, o tédio é proibido).
~ Conhecimento é preciso, mas não é necessária uma biblioteca interminável, leia, mas há a praia e Sol.
~ Conforto e moda, perfumes e beleza, sim senhor!
~ Não seja pobre de espírito, não fale asneiras.
~ Atenção, procure não apenas responda, afinal, responder é educação, interesse é outra coisa...
~ Cante se souber, aprenda o que puder, seja independente.
~ Seja livre.
~ Viva livre!
~ Desmanche as algemas, "desate o nó que te prendeu a uma pessoa que nunca te mereceu".
~ Deixe o passado no pretérito. Faça-o sempre perfeito, para que o presente seja uma dádiva, para que tuas linhas sejam limpas, para que teu caminho seja livre
 Se a tu coubesses a escolha, agradeceria por ser minha irmã, mas como não o foi, espero que o destino seja agradável pra ti, porque se Deus um dia escolheu as pessoas pra minha vida, estou certa que escolha melhor Ele não poderia ter feito, alguém igual não há de ter.

Então, Feliz Aniversário. Que venha sendo feliz desde 1991.

Parabéns! Para que tenha bens. Para que tenha bons amigos.

Para que tenha um bem... Um bom.. Um amor que te leve aos céus e que nunca queira controlar teus passos (daí ele se dará mal).

  Ano que vem, renovarei as felicitações para que elas permaneçam sólidas e tua casa, teu imóvel, seja concreta.
 Deixo beijos, e as marcas definitivas em meu avental.

Deixo ainda o desejo de que as analogias que aqui uso não te façam perder, mas permitam-te desenhar algumas imagens do que quero te dizer - espero te dizer. E que venhas comigo nessa empreitada, nessas cenas, nessa de compactoimóvel.

Outros degraus, um corrimão.

O conhecimento traz o gosto.
O gosto, o perfeccionismo
e dele  vem a dedicação, ou será o contrário?
Especificamente, o viaduto não será alterado pela ordem dos tratores (poderia ser o produto e seus fatores e as cores, mais uma vez, não mudariam).
Nesse caminho a gente perde, mas aprende que decisões são excludentes e as prioridades devem compor, senão os degraus, o corrimão da escada. 
Bom que seja o corrimão, daí a gente se apoia e não caí. Daí a gente se segura e pode até dançar uma valsa, um forró mais descomprometido ou mesmo um tango com uma rosa na boca, se o caso for de sedução.
Se o problema do futuro é a gente não saber quando as prioridades vão mudar,  o presente nos intimida à escolher mesmo sem saber se de fato iremos acordar, se os ponteiros vão avançar, se a gente vai gostar de quem a gente já gostou, se a Terra, enfim, continuará girando.
Mas não importa e nunca importou. O futuro está onde nunca esteve, já que ainda não passou, de pretérito nada tem, conjugado não pode ser, calado permanecerá até que presente se torne e conceba que, de fato, nunca será o futuro, como um dia sonhou.
Daí não importa se vivos estaremos ou parados ficaremos, já que o vinil que hoje embala teu sono não estará para teu neto escutar e nem assim tuas noites devem ser privadas dele.
 Então já que futuro não pode ser e do passado a gente só tem as lembranças, do presente fiquemos com o gosto, o gosto de gostar do gosto que tem.

terça-feira, 17 de abril de 2012

...queijos e goiabadas.


Aconchegar: O ato de se aproximar com um ar inocente que faz todo o mundo desaparecer. Perto. Mais perto. Perto até tocar.

Contagem regressiva em busca da tela ainda não tecida.

Cada dia preciso de um baú maior para o que tenho a dizer.
Chegará o dia que precisarei de um baú grade o suficiente para todos os baús.
E de baú em baú precisarei de dois cômodos, quem sabe três.
De três em três um um pavimento.
De dois não passará e terei um teto.
E terei um imóvel.
um, dois, três... o que virá depois?
três, dois, um.
Uma necessidade.

domingo, 15 de abril de 2012

Sentido por sentido: Finalidade.

    É como manter-se calado. Tem a mesma utilidade de falar com as paredes num quarto de portas fechadas. É como estar no calabouço de olhos abertos ou no cinema de óculos escuros. Como escrever para um cego ou balbuciar para um surdo. Desejar comentários de um mudo ou esperar carícias de um maníaco.
   Mas mesmo assim a gente continua, a gente escreve como se alguém fosse ler, não alguém, mas o alguém. A gente escreve e se sente dizendo, se sente conversando. A gente finge que disse e depois dar-se conta do fantástico momento que passou.
   Nesse sentido é inútil, mas não em todos os sentidos.
   Transpor os sentimentos para o papel é como provar de uma fruta desconhecida: Ela está ali, diante dos olhos, seu sabor é inalcançável até que se prova. Escrever é provar, provar da fruta já existente (sentimentos e afins) e assim conhecê-la, e assim poder falar sobre, entender, gostar ou não.
   Mas a gente nunca quer só conhecer. A gente quer manipular, mesmo fantasticamente, o que se escreve, manipular para alguém, destinar e se convencer.
   Há vezes, porém, que não há destinatário e ai sim, escrever é satisfação puramente pessoal. Não há a preocupação com o leitor. A gente lê uma, duas, três vezes e não se cansa porque aquelas palavras transpõe tanto o que se sente que é como uma mágica realizada. É de uma satisfação imensa e desejamos continuar a ler, quantas vezes forem possíveis, até a possível (não provável) obsolescência atingida. Improvável, mas, às vezes (mais uma vez) acontece, porém não há motivo para preocupação, caso isso ocorra, não faltarão novas palavras para serem escritas, novos textos ainda não obsoletos, novos em si, até a exaustão. 

Escreva. Prove. Delicie-se.

sábado, 14 de abril de 2012

Extrapolando

São dois minutos antes do exigido.
São poucas linhas e muitas ideias não claras.
É pouco tempo para quem tem muito a dizer; é muito tempo para quem não quer ouvir.
Para alguém com uma pedra de gelo na mãos, qualquer segundo é eterno; como um intenso beijo que poderia durar a noite inteira (Inverso).
Foram dois minutos.
Agora três.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Branco nº 2.


    Como não podia deixar de fazer jus ao dia, andei pela cozinha, pelo quarto... Mas foi mesmo na varanda, no suporte da lamparina que enconterei:

“- Roube-me um beijo.
(...)
Ele se aproxima, olha fixamente, pensa no pescoço, lembra-se da advertência, decide pelos ombros, chega mais perto, deixa sua respiração tocá-la, torna olhá-la, sua respiração cada vez mais próxima, ele pode sentir o hálito dela, ela pode ouvir os batimentos dele, ela fecha os olhos, um milhão de coisas pela cabeça dele, suas mãos antes nos ombros dela agora sobem para nuca, ele fecha os olhos-ainda pode vê-la- a ansiedade a toma- Ele conseguirá?- Ele treme, ele abre os olhos, ele recua. Ela não sente mais a respiração dele. Ela não sente mais as mãos dele em sua nuca. Ela abre os olhos. Ela o avista. Ela não entende. O Silêncio também não palpita. Ele pega o guardanapo na mesa e começa a mexer, amassá-lo, talvez. Ela se refaz e admite o fracasso de seu aluno. Ele estende as mãos: Uma rosa e um papel escrito. Ela recebe e não enxerga mais nada. Percebe os traços. Olha para o lado: Uma cadeira vazia.
(...)
Desculpe, não posso. Talvez um dia diga que a amo. Talvez um dia entregue uma rosa e fuja para não encarar seus olhos.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Levante exatamente às três.


Tum... Tum... Tum... na catedral.
Trim...Trim...Trim... no despertador da cabeceira.
Cucô Cucô Cucô    no brechó do outro lado da rua.
São 3 horas.
É hora de acordar.
Hora de despertar e levantar pro dia que vai nascer.

O sol ainda não apareceu, a Lua implacável, alguém ainda dorme depois da porta ao lado.

Não são mais 3h.

Hora de dormir. Já não é perfeito. Já foi feito. Per dido tempo.

sábado, 7 de abril de 2012

Poderia acontecer. Eles podiam se ouvir.


- Boa noite.
- Boa noite.
(poderia ser um beijo)
- Então, conseguiram resolver a falta de instrutores? Naquele dia já havia alunos reclamando.
-Teve uma seleção hoje e conseguimos dois instrutores já com alguma experiência. Vão passar por duas semanas de testes e quando se interarem das normas, poderão saltar com os alunos.
- Ainda bem, você já estava a ponto de um ataque, organizando tudo por lá.
- Verdade. Mas acabou a agonia, ainda bem!
Eles curtiram aquele silêncio, raro silêncio, na noite que começara o inverno, noite de folhas congeladas e do vento frio que entrava pela janela. Foi momentâneo, mas pode-se registrar, no vento, como um desenho, a marca de cada sorriso estampado, um em cada face (poderiam estar em uma única boca).
- Sim, me deixa dizer. Hoje quando voltava da empresa, ainda no sinal fechado, avistei um casal que parecia discutir, ele com um ramalhete e ela não aceitando. Ele parecia pedir desculpas e ela chorava, mas sem ceder aos braços dele. Então ela começou a recuar e virou-se, ele permaneceu parado sem querer ir embora. Ela atravessou a faixa e parou à baixo de uma árvore na calçada. Ventava muito às 8h (quando o relógio da torre tocou), quando uma semente, ou algo parecido, caiu da árvore e como um impulso ela voltou-se a ele e ia atravessar a rua, quando o sinal abriu. Enquanto esperava os dois carros a minha frente avançarem, pude ver quando ele foi embora, deixando-a. Ela que teria atravessado se o sinal atrasasse 5 segundos, mas que ficou imóvel enquanto o sinal estava aberto. E tudo durou o tempo suficiente de um sinal de trânsito.
- Uau. É triste, mas é cômico também. Só ia depender da música de fundo.
- Verdade, mas fiquei pensando na cena até chegar aqui. Se alguém em contasse, eu diria que seria parte de uma narração.
Começaram a rir, os lábios compassados como se tocassem numa orquestra. Os visinhos jamais escutá-la-iam.
Foram horas, horas de conversa, como de costume. O raro silêncio não aparecia, a noite gélida não parecia importar, o vento entrando pela janela fazia-os se enterrarem nos lençóis aconchegantes, mas sem deixarem de conversar por um segundo.

Poderiam estar abraçados.
Poderiam desenhar um beijo.
Poderiam não escapar um aos olhos do outro.
Poderiam, mas o tempo não os deixaria.

Estavam a três horas, um do outro.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ponteiros: Mais uma sobre o tempo.

Do tempo eu vim, tu vieste e pro futuro nós fomos.
Do futuro que ficou no imperfeito, sobraram palavras incompletas e algo por conjugar num outro futuro que ainda não passou.
Agora presente, indissociável passado e entrelaçado futuro, estamos aqui.
Estou e tu estás de fronte a caminhos novos sem marcas no chão. De costas para as folhas caídas do outono que se foi.
E se o vento da recente primavera traz novas folhas até ti, tu deves cuidar delas com zelo, se de fato não machucarem tuas mãos.
Nunca soube quais as flores mais bonitas da primavera. Deveria ter subido em mais árvores e explorado mais campos. Mas num futuro que era pretérito, ao mesmo tempo, ficou o desejo não concretizado e no presente não há a lembrança.
Por não entender como as flores podiam crescer depois de meses de frio, não senti seus perfumes.
Não pude, não poderia, em hora passada, acreditar que sentindo eu entenderia. Deveria acontecer o contrário: Entender e depois apreciar e como a ordem não foi respeitada, por detrás do vidro da janela eu permaneci, sem ir lá fora, sem deixar a chuva limpar minhas lentes, sem enxergar plenamente.
Sei que do lado da copa da árvore diariamente eu passava e o passado se tornava presente, o que seria  futuro no dia seguinte. Passava à baixo do sol escaldando minha pele, meus olhos desprotegidos de seus raios.
A chuva, por vezes, parecia indicar algo, como um sinal de trânsito oferecendo passagem, como um oráculo oferecendo uma chance  para planos diante do que ocorreria.

Talvez faltou sabedoria.
Talvez sobraram entrelinhas.
Não sei e ao menos soube.

Um dia não precisarei entender.
Apenas apreciarei.

A armadura desmanchará e não estarei mais tão vulnerável.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Há um cravo no parapeito da janela.


As palavras voltam a meus punhos e descem por meus dedos, mas ainda não sei se tomarão forma. Não sei se pintarei com elas um texto ou apenas farei delas aquarela. Tenho muitas cores em mãos, ainda nos potes, e não sei ao certo qual usar nesse momento. Temo que alguma delas caia sob meus braços encharcando-os de tal forma que eu não saiba controlar, por isso tenho calma (tento ter calma).

Sei que o subjetivismo de minha vida causou-me problemas.

Sei que ao passo que eu não me entendia, não fazia mais alguém me entender.
Fiz promessas para livrar-me dele, inventei que havia me libertado, quis me convencer de tal, de tola me fiz, de tola deixei-me fazer.
Esse subjetivismo que me fazia escrever (ou mesmo falar) nas entrelinhas, que me fez me perder mais ainda quando eu já estava perdida por entre meus sentimentos, pode ter uma causa quase comprovada, pra não dizer certamente comprovada: Medo.

Esse ator que participou de vários capítulos, lá meses, anos de minha história, e que ainda teima em pegar papéis de figurante, esteve tão presente que chegou a me cegar. Tolice ou não, fraqueza ou não, sendo sincera agora, sei que por ele eu pequei, sei que por ele eu deixei o regador de lado e as flores murcharam no parapeito da janela.
Não apareci para rega-las nem mesmo depois. Nem mesmo quando “as coisas” pareciam mais calmas-pareciam, é bom frisar- pois nunca soube quando elas estavam de fato calmas. Só sei que não apareci e elas parecem murchas. O que mais me surpreende é como elas deixam a janela triste. Como se eu não fosse lá, eu não as reguei e agora elas deixam a sala triste. Mas, ao mesmo tempo, não posso tirá-las de lá. Não as tirarei, não as enterrarei no jardim dos fundos, lá plantarei outras.

Os outros motivos que me fizeram não aparecer para regá-las (regá-lo) eram bastante convincentes (mas não mais).  Não me julgo por tal, não se pode convencer uma realidade com outra, afinal.

Eu não temia que aquele cravo crescesse de tal modo que não se comportasse mais dentro da sala, temia não saber lidar com isso, não saber se podia prometer tanto. Medo e mais uma vez medo. De receio, cortei ramos seus. Arranquei flores de seu vaso. E deixei-o lá, como se ele fosse continuar florescendo independente da água que eu fornecesse. Tolice.

De vez em quando volto a olhar de longe para a mesma janela, mas agora não cabe a mim rega-lo Tenho água, em abundância, mas ele morreria caso eu forçasse qualquer aproximação. De murcho ficou ferido. E de ferido, agora sente dor com a mesma água que um dia tanto quis, água que não levei.

Ele lá permanecerá. Não o retirarei. Minhas mãos não o farão. Caso um dia chova e ele aceite outras águas, caso já forte queira abandonar o parapeito, não sei se algo poderei fazer, mas por minhas mãos, elas não sairão de lá.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Começando o recomeço.

Medo do novo. De novo, medo. Novo caminho. À caminho do novo.

De novo (temporário ou contínuo).

Nada é tão imutável que o novo não mude.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Fita, nó e laço: Nem sempre dá pra separar.

  É perfeito o imperfeito que não precisa da perfeição para ser belo. É saciável a sede - que só se mata com abundante água - do beduíno em frente à miragem que se esvai, mas que por alguns segundos permaneceu e saciou toda vontade fisiológica e psicológica do viajante que nunca se perderá por entre as dunas.
  A miragem é tudo que ele sonhou durante noites, é tudo que ele desejou por dias de sol escaldante, é tudo que ele poderia querer. Não é só água, em significado nunca seria nunca será. É desejo, é sonho, é um sinal, como se a areia não fosse mais tudo que ele tem, a tal luz no fim do túnel, segundos de sonho concreto. E, se a realidade vem, ele viveu aquele momento como único que jamais será roubado, jamais esquecido, os segundos mais doces de sua caminhada.

  Eterno enquanto dure, durante toda vida do imortal que falece quando o infinito acaba. Ele, porém, continua vivo, não mais imortal, apenas vivo. Um vivo que vaga, que sobrevive, que bebe que come dos pães menos doces por eternos dias que um dia terão fim, este que parece longínquo apenas a seus olhos, morada de tortuosos olhares emersos em águas cristalinas que lhe molharão a boca, as mãos, os pés até ele aprender a andar sobre essas águas, até ele fazer delas seu chão e não mais escorregar, até o sol leva-la toda consigo restando apenas os sais que marcarão a pele e deixarão as lembranças, as mais doces.

  Cresce a vontade quanto mais se lembra, mas é necessária a embriaguez. Se permanecer bêbado é lá perigoso, a ressaca pode ser triste, pois ela leva aquilo de mais torto que mais sentido fazia para um cego, ou não, que anda trocando os pés, numa avenida qualquer, sob os olhares do décimo, nono, oitavo, sétimo andares.
  A ressaca apaga, a ressaca dói, a ressaca cura a necessidade absurda que se tinha daquela fonte. A sobriedade é pior porque quando ela chega mesmo um contato direto com a fonte não causa mais dependência. Aos olhos dos sóbrios por excelência, ela é magnânima, mas para um embriagado é a sentença do fim e o fim nem sempre é a melhor escolha, a mais desejada escolha.
  Depois de uma longa recuperação, ela (a sobriedade) parece a melhor opção, a única sã e com ela, um novo infinito se molda um novo “eterno enquanto dure” porque se nada é para sempre, a gente faz do sempre algo que tem fim e a frase fica nada é para ter fim para que o nada dê lugar ao tudo e este sim passe a ser para sempre.


  Às vezes, olhar do ângulo errado faz do certo torto.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Mais uma de saudade

Escrevo as lágrimas que não caem de meus olhos imersos em saudade. Futura e sentida saudade que invadirá meu peito num futuro certo, nada distante (a uns quilômetros daqui, de lá). Lágrimas já escritas, mas que teimam em descer por meus dedos e forçam-me a novas palavras.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Recortando.

"...e temo ainda mais por um dia em que não sejam tão viciantes como hoje são.
Desejo permanecer assim: Embriagada, como quem bebe sempre da mesma fonte e prefere morrer de overdose à uma ressaca que limita a memória."

Porque, às vezes, um pedaço de torta na geladeira vale mais do que uma inteira no forno.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

À procura de uma resposta.


Acho que escrevo porque me falta algo e procuro aqui. Talvez as palavras não tenham um espaço seu ainda e, por enquanto, estejam ocupando um determinado vazio. Talvez o lugar delas ainda esteja sendo construído, talvez isso demande mais tempo do que eu havia planejado. Talvez a obra tenha atrasado devido às chuvas dos últimos dias (nem sei se foram dias). Sei que não posso cobrar muito dos construtores, afinal, eles não têm lá autonomia, tudo depende de engrenagens, se uma não funciona como deve, toda a maquinaria fica comprometida. Mas, desejo imensamente que fique pronto logo, não deve-se usar o que for para preencher um espaço que pertence a outro (ou é seu, ou não deve existir). Espero que seja provisório, uma provisória situação.
Não costumava sentir saudade. Punia-me por não sentir saudade. Hoje, ela me pune. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Direito de posse.


Agora são Longos-curtos. E assim se fazem: Como degraus, subindo até a franja; em camadas que descem como ondas por minhas costas, fazendo cócegas, quase beijos. No espelho, tenho variadas versões agora: Posso deleitar-me com seu pouco comprimento esse, que por falta de coragem, há tempos não aprecio. Posso voltar à visão de suas longas mechas ainda presentes, depois de olhar de outro ângulo.
Há tempos não os modificava. Há tempos suas pontas, como secas folhas, tiravam seu acabamento, não permitiam o toque final, davam trabalho e não me satisfaziam. A franja já não era franja, mas sim algo que se perdeu no tempo tornando-se dúvida, como aquele que perde o rumo e, por não saber mais aonde vai, aceita qualquer definição, qualquer uma que o faça sentir ainda vivo.  Definiram-na como “franjão” e ela aceitou, pois, já perdida, se satisfazia com alguma caracterização ainda possível.
Sem curvas já estavam ficando. Sem formato. Sem definição. Não foi aparado, retocado, cuidado e assim o exagero o tomou e cresceu desregradamente. Também muito foi puxado: Pra um lado, pro outro, pra aquele que satisfizesse a vontade de quem o alcançasse, de quem dele tomasse posse. Foi preso, como culpado por um crime, sem pena, mesmo se rebelando. E se rebelou: Pra cima, para os lados, mesmo quando seus fios eram quebrados (principalmente quando seus fios eram quebrados).
Mas agora posso dizer que o passado se esvaiu e a penitência não há mais. Mais agradáveis e com mais motivos para sorrir, eles permitem-me horas em frente ao espelho. Que pareça fútil para os desavisados ou desconhecedores da saga, mas para mim são importantes e sempre serão. Jamais esquecidos outra vez. Talvez ainda enfrentem altas temperaturas, mas se a causa for justa, eles entenderão.

Sempre da mesma cor. Cacheados. Lisos. Curtos. Longos. Agora Longos-curtos, ainda meus. Sempre meus. Meus cabelos.

                                                                                                                             03/02/2012

Jamais uma fita cassete



Incrível é quando você tem a certeza e continua com a dúvida. Quando o passado bate a tua porta, ou à porta de conhecidos teus e pessoas ainda aparecem pra dizer que tu deverias pensar da mesma forma que antes e esse passado é apenas usado para isso.
Usado, sim. Ele está lá e compete a ti olhá-lo da forma que mais te convier, o certo seria: Da melhor forma pra tua vida, mas nem sempre é o que acontece.
“Se fosse para isso acontecer, teria sido assim há um ano, ou dois, talvez.”
Mas as pessoas se esquecem de um fator determinante para o espaço-tempo: As verdades mudam. As prioridades mudam. A realidade muda. Se em teu ano acontecesse os mesmos eventos que aconteceram no que passou, tuas reações seriam diferentes e isso não faria de tu menos sincero (a) e sabes por quê? Porque tu não és o mesmo e como duas pessoas diferentes, as reações não podem ser as mesmas.
Prioridades: Tua mente gira ao entorno delas: Se queres, derramará de lágrimas tuas à de outros; se não queres, permaneceras calado, dormindo, quem sabe, não moverás uma agulha por isso. E a magia do tempo reside justamente ai: Se tu não levantarias da cama por algo (alguém), talvez ano que vem ou mesmo amanhã, limpe os trilhos do metrô ou numa linguagem mais real, viagem por horas por tua nova prioridade.
As pessoas tendem a se arrepender, ou achar que estão arrependidas, por algo que não fizeram ou não gostariam de ter feito, mas talvez, elas não saibam que não pensariam assim caso sua decisão tivesse sido diferente. Decisões diferentes levam a conclusões diferentes: Não seria tão mágico, caso tivesse acontecido; não seria tão ruim se tu não tivesses vivido. Mas, tu nunca saberás e não deveste te consumir pensando. Pensamentos levam a atitudes futuras, mas não mudarão teu passado.
Aconteceu e tu jamais saberás como seria se não tivesse sido.
Não foi: Parece que seria mágico, portanto (creia, teria menos brilho do que tu procuras acreditar).
A vida não se faz como uma fita que tu possas voltar depois de ter visto uma cena futura. Não podes rebobinar, não podes, ao menos, apaga-la e tentar novas gravações por cima. Não te culpes por isso e caso alguém te faça sentir culpado por algo que tu fez ou não, diga-o: Tu também não podes.
Não é errado fazer hoje algo que tu julgas que poderia ter feito antes, mas não fez. Hoje, os motivos que tu já tiveste não te convencem mais, mas com certeza, foram suficientes no tempo que passou. Tu jamais poderás fazer quem tu eras pensar de forma diferente, seja por não poder voltar ao passado e tentar um confronto frente-a-frente; seja por que não se convence alguém numa realidade com fatos de outra desconhecida pela primeira.

Não é possível ler a sorte antes de quebrar o biscoito. Não é possível se arrepender do que leu antes de quebrar o biscoito.

                                                                                                                        21/01/2012