Sim, porque não será extenso; não haverá lugar para vazios.
As palavras aqui ocuparão parte do espaço: algumas gavetas,
geladeira, a cima das mesas, parte do armário do banheiro...
Mas não todo o imóvel.
A outra parte será destinada a quem desejar visitá-lo, tomar
por empréstimo alguns vocábulos moldá-los, ou mesmo senti-los.
Não será necessário bater a porta sempre que se desejar entrar,
se a causa for justa e as palavras respeitadas,os visitantes serão
sempre bem vindos.
Caso deseje deixar de lembrança alguns termos poucos ou muitos
não se preocupe com a disponibilidade de espaço,
o compactoimóvel só estará completo para aquele que não
gostar do aroma da torta de morango no forno, das rosas na
janela ou mesmo para quem se sinta grande demais
a ponto de não caber em seus cômodos.

Todos os demais,
sejam bem vindos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Fita, nó e laço: Nem sempre dá pra separar.

  É perfeito o imperfeito que não precisa da perfeição para ser belo. É saciável a sede - que só se mata com abundante água - do beduíno em frente à miragem que se esvai, mas que por alguns segundos permaneceu e saciou toda vontade fisiológica e psicológica do viajante que nunca se perderá por entre as dunas.
  A miragem é tudo que ele sonhou durante noites, é tudo que ele desejou por dias de sol escaldante, é tudo que ele poderia querer. Não é só água, em significado nunca seria nunca será. É desejo, é sonho, é um sinal, como se a areia não fosse mais tudo que ele tem, a tal luz no fim do túnel, segundos de sonho concreto. E, se a realidade vem, ele viveu aquele momento como único que jamais será roubado, jamais esquecido, os segundos mais doces de sua caminhada.

  Eterno enquanto dure, durante toda vida do imortal que falece quando o infinito acaba. Ele, porém, continua vivo, não mais imortal, apenas vivo. Um vivo que vaga, que sobrevive, que bebe que come dos pães menos doces por eternos dias que um dia terão fim, este que parece longínquo apenas a seus olhos, morada de tortuosos olhares emersos em águas cristalinas que lhe molharão a boca, as mãos, os pés até ele aprender a andar sobre essas águas, até ele fazer delas seu chão e não mais escorregar, até o sol leva-la toda consigo restando apenas os sais que marcarão a pele e deixarão as lembranças, as mais doces.

  Cresce a vontade quanto mais se lembra, mas é necessária a embriaguez. Se permanecer bêbado é lá perigoso, a ressaca pode ser triste, pois ela leva aquilo de mais torto que mais sentido fazia para um cego, ou não, que anda trocando os pés, numa avenida qualquer, sob os olhares do décimo, nono, oitavo, sétimo andares.
  A ressaca apaga, a ressaca dói, a ressaca cura a necessidade absurda que se tinha daquela fonte. A sobriedade é pior porque quando ela chega mesmo um contato direto com a fonte não causa mais dependência. Aos olhos dos sóbrios por excelência, ela é magnânima, mas para um embriagado é a sentença do fim e o fim nem sempre é a melhor escolha, a mais desejada escolha.
  Depois de uma longa recuperação, ela (a sobriedade) parece a melhor opção, a única sã e com ela, um novo infinito se molda um novo “eterno enquanto dure” porque se nada é para sempre, a gente faz do sempre algo que tem fim e a frase fica nada é para ter fim para que o nada dê lugar ao tudo e este sim passe a ser para sempre.


  Às vezes, olhar do ângulo errado faz do certo torto.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Mais uma de saudade

Escrevo as lágrimas que não caem de meus olhos imersos em saudade. Futura e sentida saudade que invadirá meu peito num futuro certo, nada distante (a uns quilômetros daqui, de lá). Lágrimas já escritas, mas que teimam em descer por meus dedos e forçam-me a novas palavras.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Recortando.

"...e temo ainda mais por um dia em que não sejam tão viciantes como hoje são.
Desejo permanecer assim: Embriagada, como quem bebe sempre da mesma fonte e prefere morrer de overdose à uma ressaca que limita a memória."

Porque, às vezes, um pedaço de torta na geladeira vale mais do que uma inteira no forno.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

À procura de uma resposta.


Acho que escrevo porque me falta algo e procuro aqui. Talvez as palavras não tenham um espaço seu ainda e, por enquanto, estejam ocupando um determinado vazio. Talvez o lugar delas ainda esteja sendo construído, talvez isso demande mais tempo do que eu havia planejado. Talvez a obra tenha atrasado devido às chuvas dos últimos dias (nem sei se foram dias). Sei que não posso cobrar muito dos construtores, afinal, eles não têm lá autonomia, tudo depende de engrenagens, se uma não funciona como deve, toda a maquinaria fica comprometida. Mas, desejo imensamente que fique pronto logo, não deve-se usar o que for para preencher um espaço que pertence a outro (ou é seu, ou não deve existir). Espero que seja provisório, uma provisória situação.
Não costumava sentir saudade. Punia-me por não sentir saudade. Hoje, ela me pune. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Direito de posse.


Agora são Longos-curtos. E assim se fazem: Como degraus, subindo até a franja; em camadas que descem como ondas por minhas costas, fazendo cócegas, quase beijos. No espelho, tenho variadas versões agora: Posso deleitar-me com seu pouco comprimento esse, que por falta de coragem, há tempos não aprecio. Posso voltar à visão de suas longas mechas ainda presentes, depois de olhar de outro ângulo.
Há tempos não os modificava. Há tempos suas pontas, como secas folhas, tiravam seu acabamento, não permitiam o toque final, davam trabalho e não me satisfaziam. A franja já não era franja, mas sim algo que se perdeu no tempo tornando-se dúvida, como aquele que perde o rumo e, por não saber mais aonde vai, aceita qualquer definição, qualquer uma que o faça sentir ainda vivo.  Definiram-na como “franjão” e ela aceitou, pois, já perdida, se satisfazia com alguma caracterização ainda possível.
Sem curvas já estavam ficando. Sem formato. Sem definição. Não foi aparado, retocado, cuidado e assim o exagero o tomou e cresceu desregradamente. Também muito foi puxado: Pra um lado, pro outro, pra aquele que satisfizesse a vontade de quem o alcançasse, de quem dele tomasse posse. Foi preso, como culpado por um crime, sem pena, mesmo se rebelando. E se rebelou: Pra cima, para os lados, mesmo quando seus fios eram quebrados (principalmente quando seus fios eram quebrados).
Mas agora posso dizer que o passado se esvaiu e a penitência não há mais. Mais agradáveis e com mais motivos para sorrir, eles permitem-me horas em frente ao espelho. Que pareça fútil para os desavisados ou desconhecedores da saga, mas para mim são importantes e sempre serão. Jamais esquecidos outra vez. Talvez ainda enfrentem altas temperaturas, mas se a causa for justa, eles entenderão.

Sempre da mesma cor. Cacheados. Lisos. Curtos. Longos. Agora Longos-curtos, ainda meus. Sempre meus. Meus cabelos.

                                                                                                                             03/02/2012

Jamais uma fita cassete



Incrível é quando você tem a certeza e continua com a dúvida. Quando o passado bate a tua porta, ou à porta de conhecidos teus e pessoas ainda aparecem pra dizer que tu deverias pensar da mesma forma que antes e esse passado é apenas usado para isso.
Usado, sim. Ele está lá e compete a ti olhá-lo da forma que mais te convier, o certo seria: Da melhor forma pra tua vida, mas nem sempre é o que acontece.
“Se fosse para isso acontecer, teria sido assim há um ano, ou dois, talvez.”
Mas as pessoas se esquecem de um fator determinante para o espaço-tempo: As verdades mudam. As prioridades mudam. A realidade muda. Se em teu ano acontecesse os mesmos eventos que aconteceram no que passou, tuas reações seriam diferentes e isso não faria de tu menos sincero (a) e sabes por quê? Porque tu não és o mesmo e como duas pessoas diferentes, as reações não podem ser as mesmas.
Prioridades: Tua mente gira ao entorno delas: Se queres, derramará de lágrimas tuas à de outros; se não queres, permaneceras calado, dormindo, quem sabe, não moverás uma agulha por isso. E a magia do tempo reside justamente ai: Se tu não levantarias da cama por algo (alguém), talvez ano que vem ou mesmo amanhã, limpe os trilhos do metrô ou numa linguagem mais real, viagem por horas por tua nova prioridade.
As pessoas tendem a se arrepender, ou achar que estão arrependidas, por algo que não fizeram ou não gostariam de ter feito, mas talvez, elas não saibam que não pensariam assim caso sua decisão tivesse sido diferente. Decisões diferentes levam a conclusões diferentes: Não seria tão mágico, caso tivesse acontecido; não seria tão ruim se tu não tivesses vivido. Mas, tu nunca saberás e não deveste te consumir pensando. Pensamentos levam a atitudes futuras, mas não mudarão teu passado.
Aconteceu e tu jamais saberás como seria se não tivesse sido.
Não foi: Parece que seria mágico, portanto (creia, teria menos brilho do que tu procuras acreditar).
A vida não se faz como uma fita que tu possas voltar depois de ter visto uma cena futura. Não podes rebobinar, não podes, ao menos, apaga-la e tentar novas gravações por cima. Não te culpes por isso e caso alguém te faça sentir culpado por algo que tu fez ou não, diga-o: Tu também não podes.
Não é errado fazer hoje algo que tu julgas que poderia ter feito antes, mas não fez. Hoje, os motivos que tu já tiveste não te convencem mais, mas com certeza, foram suficientes no tempo que passou. Tu jamais poderás fazer quem tu eras pensar de forma diferente, seja por não poder voltar ao passado e tentar um confronto frente-a-frente; seja por que não se convence alguém numa realidade com fatos de outra desconhecida pela primeira.

Não é possível ler a sorte antes de quebrar o biscoito. Não é possível se arrepender do que leu antes de quebrar o biscoito.

                                                                                                                        21/01/2012